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15/07/2014 10:55

MONOGRAFIA: INCLUSÃO ALUNO DEFICIENTE VISUAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

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Inclusão do Aluno Deficiente Visual na Educação Física Escolar

Resumo

Este trabalho tem o objetivo a inclusão dos deficientes visuais nas aulas de Educação Física Escolar. Mostrar para os alunos deficientes visuais que eles fazem parte da sociedade e que eles têm os mesmos direitos como a de outras pessoas consideradas “normais” perante a sociedade. Sabe-se que a uma grande dificuldade para implantarmos a inclusão na Educação Física Escolar pela falta de especialização do docente na área de educação especial, o que deixa muitos profissionais com receio em trabalhar com deficientes de modo geral e não só o deficiente visual.

Também demonstro como o deficiente vê a sua inclusão junto ao meio em que convivem, suas limitações como deficiente, a atividade física escolar e o que gerou a perda de sua visão. Portanto, este estudo possui como objetivo geral investigar quais as dificuldades o aluno deficiente visual enfrenta na Educação Física Escolar em relação a atividade física.

Esta pesquisa será realizada através de uma analise descritiva de levantamento,com uma abordagem qualitativa.Foi desenvolvido em uma Instituição federa, com alunos do segundo segmento do Ensino Fundamental. A coleta de dados ocorreu através de um questionário semi-estruturado.

Palavras-chave: Deficiência Visual, Educação Física Escolar Inclusiva, Sociedade.

Sumário

Resumo
1. Introdução
1.1 Problematização
1.2 Objetivo geral
1.3 Objetivo especifico
1.4 Relevância do estudo
1.5 Questões a investigar
2.Revisão de Literatura
3. Metodologia do Estudo
3.1. Tipo de pesquisa
3.2. Local
3.3. Fonte de Informação
3.4. Coleta e Análise de Dados
4. Análise dos dados
5. Considerações Finais
Referências
Anexos

1. Introdução

A inclusão do aluno deficiente visual na escola tem como finalidade à interação do deficiente aos não deficientes de deficiência visual não só no meio escolar, mas perante a sociedade onde há ainda um grande preconceito para com os deficientes.

O tema a ser abordado refere-se a uma situação que nos possibilita lutarmos contra alguns preconceitos, deficientes visuais e não deficiente lado a lado nas atividades de Educação Física Escolar, na sociedade e entre outros.

Um dos grandes desafios enfrentados pelos professores de Educação Física em sua prática docente refere-se à adoção de uma postura adequada para o trabalho com turmas especiais. Apesar de muitas vezes, de acordo com o vigente em legislação, as turmas serem compostas por aulas diferenciadas para deficientes e não deficientes visuais muitos docentes optam por não uni-los durante as atividades e, por vezes, diferenciam as atividades de acordo com a deficiência.

Sabemos que encontraremos muitas dificuldades para implantarmos atividades esportivas para deficientes visuais, pois os preconceitos existem até mesmo pelos próprios pais dos alunos.

Desta maneira, as atividades recreativas e rítmicas poderiam ser consideradas como meios mais eficazes para promover esta socialização dos alunos que a educação física escolar tanto prioriza. Normalmente são realizadas em grupos, aos quais obedecem ao princípio da cooperação entre seus componentes, estimulando assim a criança em sua apreciação do comportamento social, domínio de si mesmo, autocontrole e respeito ao próximo.

Uma das grandes responsabilidades do professor é tentar buscar um equilíbrio entre a aula desejada pelos alunos, e a aula por ele planejada.

O caminho para a transformação passa por negociações entre professor e alunos, que dependem de uma aproximação do professor, o conhecimento dos alunos e da cultura escolar vigente, para que se possa posteriormente planejar e efetivar as desejadas mudanças.

A Educação Física Escolar Especial sendo bem ensinada pode alcançar ótimos resultados dentro da escola e, principalmente, na sociedade se os futuros profissionais se empenharem em alcançar estes objetivos, ultrapassando as barreiras que os impedem de colocar em prática estes ideais de unificação das aulas, podendo mostrar para os alunos e para a sociedade que os deficientes visuais e os não deficientes visuais podem caminhar juntos com respeito mútuo.

1.1. Problematização

Quais as dificuldades o aluno deficiente visual enfrenta na educação física escolar?

1.2. Objetivo Geral

- Investigar de que forma a Educação Física Escolar inclui o aluno deficiente visual na atividade física.

1.3. Objetivos Específicos

- Verificar as dificuldades dos alunos em interagir com demais alunos durante as aulas de Educação física.
- Investigar opiniões de alunos sobre as mudanças que a inclusão na educação física escolar trouxe para sua vida.

1.4. Relevância do Estudo

A Relevância deste estudo consiste em valorizar a inclusão de atividades mistas nas escolas, rompendo com o preconceito social, e proporcionando aos deficientes visuais a sua participação nas aulas de educação física, fazendo com que todos interajam nas atividades escolares.

1.5. Questões a Investigar

Investigar a inclusão do aluno deficiente visual nas aulas de educação física, na sociedade, se durante as atividades do dia a dia o deficiente visual apresenta variações de humor referentes às suas limitações. E se a participação dos deficientes visuais em grupos sociais acontece de forma inclusiva.

2. Reviso de Literatura

2.1. Deficiência Visual

A deficiência visual inclui dois grupos de condição visual: cegueira e visão subnormal. Para fins educacionais e de reabilitação são utilizados os seguintes conceitos da Fundação Dorina Nowill para cegos-FDNC (2000):

Cegueira: ausência total de visão até a perda da capacidade de indicar projeção de luz.

Visão subnormal: condição de visão que vai desde a capacidade de indicar projeção de luz até a redução da acuidade visual ao grau que exige atendimento especializado.

Ainda segundo essa Fundação, a deficiência visual seja ela total ou visão subnormal pode afetar a pessoa em qualquer idade. Bebês podem nascer sem visão e outras pessoas podem tornar-se deficientes visuais, em qualquer fase da vida, desde os primeiros dias de vida até a idade avançada. A deficiência visual ocorre independentemente de sexo, religião, crenças, grupo étnico, raça, ancestrais, educação, cultura, saúde, posição social, condições de residência ou qualquer outra condição específica. Pode ocorrer repentinamente de um acidente ou doença súbita, ou tão gradativamente que a pessoa atingida demora a tomar consciência do que está acontecendo.

Deficiência visual e a perda total ou parcial, necessitando ao seu portador recursos específicos para a sua alfabetização (MOQUEIRA, 2000).

Em toda a sociedade a deficiência visual interfere em habilidades e capacidades, e afeta não somente a vida da pessoa que perdeu a visão, mas também membros da família, amigos, colegas, professores, empregadores e outros.

Em 2002, Cidade, Freitas e outros, citados pela Revista Digital efdeportes, concluíram que as deficiências visuais podem ser congênitas ou adquiridas, algumas podem resultar na deficiência visual, direta ou indiretamente; outras não necessariamente. Há diversos tipos de classificação: legal, médica educacional, esportiva, Falaremos um pouco de cada uma delas.

2.1.1. Classificação Legal

Esta classificação permite à pessoa o direito aos atendimentos previstos pela lei, e obtenção dos recursos junto à previdência social, estabelecendo o exercício da cidadania, variando de acordo com a Constituição de cada país.

Segundo a Associação Brasileira de Desportos para cegos-ABDC (2003), Abaixo seguem as leis federais que surgiram no segmento da Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã, que estabeleceu uma condição de igualdade entre as pessoas, de acordo com as características de cada um, e como tal, as pessoas com deficiência, o pleno exercício da cidadania e da integração social.

Leis no âmbito do desporto 10264 (Lei Piva) e 9615 (lei Pelé), de 16 de julho de 2001. A lei 10264, conhecida como Lei Piva foi sancionada pelo Ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, estabelecendo que 2% da arrecadação bruta das loterias federais do País sejam repassados ao Comitê Olímpico Brasileiro-COB (85%) e Comitê Paraolímpico Brasileiro-CPB (15%).

A Lei 7853, de 24 de Outubro de 1989, dispõe sobre o apoio às pessoas com deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE. Institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes, e dá outras providências.

A Lei 9394, de 20 de Dezembro de 1996, estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional.

2.1.2. Classificação Médica

Segundo o texto da Americam College of Sports Medicine – ACSM (1997), citado por Fugita (2002) a cegueira pode ser definida como:

a) Cegueira por acuidade: significa possuir visão de 20/200 pés ou inferior, com a melhor correção (uso de óculos). É a habilidade de ver em 20 pés ou 6, 096 metros, o que o olho normal vê em 200 pés ou 60,96 metros (ou seja, 1/10 ou menos que a visão normal), onde 1pé = 30,48 cm.

b) Cegueira por campo visual: significa ter um campo visual menor do que 10° de visão central – ter uma visão de túnel.

c) Cegueira total ou "não percepção de luz": é a ausência de percepção visual ou a inabilidade de reconhecer uma luz intensa exposta diretamente no olho.

2.1.3. Classificação Educacional

Para Kirk & Gallagher (1991) a classificação é baseada em um padrão de eficiência visual, que é de certo modo abstrato, sendo utilizado, cada vez mais, uma definição funcional que enfatiza os efeitos da limitação visual sobre a habilidade crítica da leitura.

O instrumento padrão usual é a Escala de Snellen, que consistem em fileiras de letras de tamanhos decrescentes que devem ser lidas a uma distância de 20 pés. Os escores são baseados na exatidão com que a pessoa com deficiência visual foi capaz de identificar as fileiras de letras utilizando um olho de cada vez.

Assim, segundo o ministério de educação e do desporto (BRASIL, 1993), pessoa cega: é aquela que possui perda total ou resídua mínimo de visão, necessitando do método Braille como meio de leitura e escrita e/ou outros métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para o processo ensino-aprendizagem, pessoa com baixa visão é aquela que possui resíduos visuais em grau que permitam ler textos impressos à tinta, desde que se empreguem recursos didáticos e equipamentos especiais, excluindo as deficiências facilmente corrigidas pelo uso adequado de lentes (BRASIL, 1993).

2.1.4. Classificação Esportiva

A classificação esportiva é utilizada nas competições e está especificada da seguinte forma de acordo com a International Blind Sport Association – IBSA (2005).

B1: Ausência total da percepção da luz em ambos os olhos, ou alguma percepção da luz, mas com incapacidade para reconhecer a forma de uma mão em qualquer distância ou sentido.

B2: Da habilidade de reconhecer a forma de uma mão até uma acuidade visual de 2/60 metros e/ou um campo visual inferior a 5º de amplitude.

B3: Desde uma acuidade visual superior a 2/60 metros até 6/60 metros e/ou um campo visual de mais de 5º e menos de 20º de amplitude.

Todas as classificações devem ser feitas medindo o melhor olho e a correção mais elevada possível. Isto significa que todos os atletas que usam lentes de contato ou vidros devem corrigir normalmente durante a classificação, se pretenderem ou não as usar durante a competição. A letra "B" refere-se ao termo blind, que significa cego, segundo a IBSA (2005).

São as classificações que permitem a elaboração de programas de atividades baseando-se nas características individuais dos alunos, resultando em um melhor aproveitamento por parte dos mesmos, permitindo a construção do seu desenvolvimento.

2.1.5. Causas e Fatores da Deficiência Visual

Genericamente falando, podemos considerar, que nos países em desenvolvimento as principais causas são infecciosas, nutricionais, traumáticas e causadas por doenças como cataratas nos países desenvolvidos são mais importantes as causas genéricas e degenerativas. Essas causas, segundo o site entre amigos (2007) podem ser divididas também em congênitas ou adquiridas. Dentre as congênitas estão traumas oculares, catarata, glaucoma, alterações retinianas relacionadas à hipertensão arterial ou diabetes e das adquiridas, os traumas oculares, catarata, degeneração senil de mácula, glaucoma, alterações retinianas relacionadas à hipertensão arterial ou diabetes.

De acordo com médicos as principais causas da cegueira e das outras deficiências visuais têm se relacionado a diversas categorias: doenças infecciosas, acidentes, ferimentos, envenenamentos, tumores, doenças gerais e influências pré-natais e hereditariedade.

2.2. Educação Física Escolar

Para uma boa parte das pessoas que freqüentaram a escola, a lembrança das aulas de Educação Física é marcante: para alguns uma experiência prazerosa de sucesso, de muitas vitórias; para outros, uma memória amarga de sensações de incompetência, de falta de jeito, de medo de errar; ou seja, de discriminação.

Para Bracht (1992), citado por Cidade & Freitas (2002), Educação física escolar refere-se às diferentes formas de atividades expressivas corporais como esporte, jogo, dança, ginástica, formas estas que configuram uma área de conhecimento que podemos chamar de cultura corporal.

A educação física escolar baseou-se na pedagogia Tecnicista, que tinha como princípios à racionalidade e a eficiência; na qual, segundo Libâneo (1994), "a atividade de ensinar era centrada no professor que expõe e interpreta a matéria". O trabalho desenvolvido na escola limitava-se a alguns itens aos quais permeariam o processo de ensino como a operacionalização dos objetivos, a mecanização completa do ensino, o parcelamento do trabalho pedagógico com a especialização de funções, onde professores e alunos passariam a ocupar posições secundárias; chegando a serem relegados à condição de executores de um processo criado e coordenado por especialistas.

De acordo com Libaneo (1994), "na aprendizagem escolar há influência de fatores afetivos e sociais… a aprendizagem escolar tem vínculo direto como o meio social. Portanto, é preciso que o profissional de Educação Física entenda que o ato de aprender a Educação Física não se limita apenas à execução mecânica do exercício motor, mas constitui-se em atividade relacionada ao cotidiano da criança, trazendo uma proposta que procure democratizar, humanizar e diversificar a prática pedagógica da área, buscando ampliar, de uma visão apenas biológica, para um trabalho que incorpore as dimensões afetivas, cognitivas e sócio-culturais dos alunos.

Segundo Ghiraldelli (1992), atualmente na organização escolar, a Educação Física tem ocupado um lugar secundário, freqüentemente isolado das demais disciplinas. Há insuficiência de espaço físico, de material para a prática da mesma, porém nem tudo está perdido, pois toda esta situação leva ao professor de Educação Física a repensar a sua profissão, a desenvolver uma visão crítica dos conteúdos e práticas existentes ao longo da história pedagógica brasileira, a descobrir caminhos que orientam uma prática docente para atender às exigências da prática social.

Aproveitando os dizeres de uma das propostas de programa de Educação Física, o trabalho docente nesta área deve buscar: ao invés do condicionamento à ordem social, formar um aluno crítico e participativo; ao invés do adestramento físico, a compreensão e uso sadio do corpo; ao invés do esporte espetáculo o esporte educativo; ao invés da disciplina imposta e da relação mecânica de ordens do professor, o autodomínio, a formação do caráter, a autovalorização da atividade física; ao invés do corpo-instrumento, o corpo como ser social.

2.2.1. Educação Física Escolar e seu Desenvolvimento para a Formação Humana

Ghiraldelli (1992), em um estudo histórico das tendências pedagógicas da educação física brasileira, identificou alguns aspectos que podem nos ajudar a entender a evolução desta nossa disciplina. Até cerca de 1930 predominou a tendência higienista, cujos padrões de conduta forjados pelas elites dominantes visavam garantir a formação de homens e mulheres sadios, fortes e dispostos à ação. Uma segunda tendência a militarista, que se manteve até 1945, com o objetivo de preparar uma juventude capaz de suportar o combate, a luta, a guerra, tendo como papel principal colaborar no processo de seleção natural, eliminando os fracos e premiando os fortes, no sentido de depuração da raça.

De 1945 a 1964, surge a tendência pedagogista, com a finalidade de levar a juventude a aceitar as regras de convívio democrático, de preparar as novas gerações para o altruísmo, o culto as riquezas naturais etc. Uma outra tendência que se tornou importante foi a competitivista, a partir de 1964, voltada para o culto de atleta herói, onde a educação física fica reduzida ao desporto, e este se torna sinônimo de variações da performance.

A escola como local voltado para a educação deve propiciar nas aulas de educação física um saber fazer das práticas corporais e um saber sobre esse saber fazer, ou seja, superar a prática e estar consciente de que não há pratica neutra, pois nela estão implícitas ou explicitas filosofias, visões de mundo, valores e interesses. Mais do que saber a teoria e a prática é preciso saber que existem teorias e praticas.

2.3. Educação Física Escolar Especial

A educação física especial na política educacional brasileira, segundo Mendes (2006), desde o final da década 1950, até os dias atuais, tem sido vista como uma parte indesejável e, muitas vezes, atribuída como assistência aos deficientes e não como educação de alunos que apresentam deficiência.

Em se tratando de educação especial, Mozzota (2003, p.11), a define como:

A modalidade de ensino que se caracteriza por um conjunto de recursos e serviços educacionais especiais organizados para apoiar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação formal dos educandos que apresentam necessidades educacionais muito diferentes das maiorias das crianças e jovens. Tais educandos, também denominados de’excepcionais’, são justamente aqueles que hoje em sido chamados de ‘alunos com necessidades especiais’.

O Teórico desta, ainda, que as escolas especiais têm um papel fundamental no desenvolvimento de crianças, jovens e adultos com deficiência, pois, elas oferecem atendimento especializado, deferente de escolas regulares, que, na maioria dos casos, não tem nada a oferecer a essas pessoas “deficientes”, que necessitam de estímulos diferentes, de adaptações, de aceitação.

Reconhecer a importância da participação das pessoas com deficiência no planejamento e na execução dos serviços e recursos a eles destinados é,sem duvida uma sociedade que pretende ser democrática.

A maior conquista está na Constituição Federal de 1988 e nas constituições estaduais a partir dela. Nesta constituição através do capítulo V, da Educação Especial, nos artigos 58, 59, 60 com seus parágrafos e incisos determinam os direitos garantidos as pessoas com deficiências (EDUCAÇÃO ESPECIAL, 1997).

2.3.1. A Educação Especial na Atualidade

A educação física especial na atualidade tem sido presidida por princípios teóricos e filósofos emanados evolução conceitual e da definição de políticas próprias, enquanto área de conhecimento e campo de atuação profissional, buscando contribuir, de maneira intencional e planejada, para a superação de uma educação especial equivocada que responsabiliza o deficiente ou o seu meio próximo pelas dificuldades de aprendizagem e de adaptação; exerce uma função segregadora e excedente e atua contra os ideais de inclusão e integração social de pessoas com deficiência e a garantia de sua plena cidadania.(OLIVEIRA, 2006).

Em relação a inclusão, debater a educação inclusiva é hoje um fenômeno que requer posicionamento ideológico, em especial, por se tratar de uma ideologia importada de países desenvolvidos, que representa um alinhamento ao modismo pois não se tem lastro histórico na realidade brasileira que sustente, não se pode negar que na perspectiva filosófica a inclusão e uma questão de valor, ou seja, é um imperativo moral, e nem questioná-la dentro da ética vigente nas sociedades ditas democráticas ,onde não se pode descartar que a adoção de diretrizes baseadas na educação inclusiva pode ser a única estratégica política com potencial para garantir o avanço necessário brasileira na educação especial (OLIVEIRA, 2006).

Segundo Zanella (2006), no Brasil há procedimentos que geram dados que permitam subsidiar o acompanhamento de políticas públicas educacionais, que adotam a perspectiva da inclusão, sobre formação de professores (do ensino regular e especial) e estratégias pedagógicas inclusivas que podem ser adaptadas para a realidade brasileira.

Mas a mudança requer ainda um potencial instalado, em termos de recursos humanos, em condições de trabalho para que ela possa se postar em pratica em pratica, pois é na existência de pessoal cientificamente preparado, para identificar as armadilhas de concepções e procedimentos inadequados, que reside à possibilidade de alterar a realidade da educação especial no País.

Portanto, a realidade da educação especial brasileira ainda não é adequada, mas percebesse grande mobilização por parte de todos em relação a melhoria da mesma, e é claro que a educação física não fica de fora desse contexto. Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, em seu artigo 26, no parágrafo 3°, a educação física está integrada a proposta pedagógica de acesso à escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se as condições da população escolar.

2.3.2. Educação Física Adaptada

A Educação física tem um papel importante no desenvolvimento global dos alunos com deficiência, principalmente daqueles com deficiência, tanto no desenvolvimento motor quanto nos desenvolvimentos intelectual, social e afetivo.

Segundo Rosadas (1989), a educação física adaptada deve ensinar os alunos a fazer mudanças dentro de si, para conseguir isso, deve-se respeitar a individualidade de cada um, respeitar suas diferenças e limitações, trabalhar suas potencialidades, nunca subestimá-los, vidrar com suas conquistas, motiva-los a dar novos passos e oferecer oportunidade para que eles possam desfrutar da alegria proporcionada pela prática recreativa e esportiva.

2.3.3. Educação Física na Educação Especial

Por desconhecimento, receio ou mesmo preconceito, a maioria das pessoas com deficiência foram e são excluídas das aulas de educação física. A participação nessa aula pode trazer muitos benefícios a essas crianças, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento das capacidades afetivas, de integração e inserção social. (BRASIL, 1997).

Os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (1997, p.85) citam que “a educação física para alcançar todos os alunos deve tirar proveito dessas diferenças ao invés de configurá-las como desigualdades. A pluralidade de ações pedagógicas pressupõe que o que torna os alunos diferentes é justamente a capacidade de se expressarem de forma diferente”.

O processo de ensino aprendizagem, a respeito dos conteúdos escolhidos deve considerar as características dos alunos em todas as suas dimensões (cognitivas, corporais, afetiva, ética estética de relação interpessoal e inserção social), não se restringe a simples exercícios de certas habilidades corporais e exercê-las com autonomia de maneira social e culturalmente significativa.

A educação física adaptada deve ensinar os alunos a fazer mudanças é uma parte da educação física, cujos objetivos são o estudo e a intervenção profissional no universo da pessoa que apresentam diferentes e peculiares condições para as praticas das atividades físicas. Seu foco é o desenvolvimento da cultura corporal de movimento. Atividades como ginástica, dança, jogos e esportes, conteúdos de qualquer programa de atividade física, devem ser considerados tendo em vista o potencial de desenvolvimento pessoal e, não a deficiência em si. (GORGATTI & COSTA, 2005).

2.4. Inclusão social

A inclusão, para Sassaki e outros (1997),como esta citado em Cidade & Freitas (2002), é uma modificação da sociedade como pré-requisito para que pessoas com necessidades especiais possam buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania; é um processo amplo, com transformações pequenas e grandes, nos ambientes físicos e na mentalidade de todas as pessoas, inclusive da própria pessoa com necessidades especiais.

Para Cidade campo; Freitas (2002), o primeiro passo para abordar questões acerca da inclusão passa pela escola, já que seu papel não é apenas o de ensinar e transmitir conhecimentos sistematizados como português, matemática, entre outras, mas também o de participar e promover ações que objetivem o estabelecimento dos padrões de convivência social. A escola pode ser um veículo facilitador junto à sociedade onde esta poderá adquirir fundamentar e modificar conceitos de participação, colaboração e adaptação.

Conceitua-se inclusão social como processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sócios gerais pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papeis na sociedade inclusão social constitui, então, um processo bilateral no quais as pessoas ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre solução e efetivar a equiparação de oportunidades para todas. As oportunidades aqui estudadas, (repousa em princípios ate então considerados incomuns, tais como, a aceitação da diferenças individuais, a valorização de cada pessoa, a convivência dentro da diversidade humana, a aprendizagem através da cooperação é o que defende Koluck,(1995),conforme está citado em Sassaki et al (1997).

A inclusão social é uma modificação da sociedade, ambiente físico e na mentalidade de todas as pessoas inclusive da própria pessoa com necessidades especiais (SASSAKI, 1997, citado por CIDADE & FREITAS, 2002).

A prática da inclusão social e utensílios como pré-requisito porque as pessoas com necessidades especiais possam buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania e um processo amplo, com transformações pequenas e grandes – nos mobiliários e meios de transporte – e na mentalidade de todas as pessoas, portanto também no próprio portador de necessidades especiais. (SASSAKI, 2003, p.42).

A inclusão social é, portanto, um processo que contribui para a comunicação de um novo tipo de sociedade através de transformações, pequenas e grandes, nos ambiente físico (espaços internos e externos, equipamentos, aparelhos).

Professores afirmam que o ensino inclusivo é a pratica da inclusão. Todos independentemente de seu talento, deficiência, origem sócio-econômica ou origem cultural, podem estudar em escolas e salas de aula provedoras, onde todas as necessidades dos alunos estão satisfeitas.

Inclusão social pressupõe formação para a cidadania, o que significa que as tecnologias de informação e comunicação devem ser utilizadas também para a democratização dos processos sociais para fomentar a transparência de políticas e ações de governo e para incentivar a mobilização dos cidadãos e sua participação ativa nas instancia cabíveis.

Em 1997, Sassaki et al, descreveram que o processo de inclusão vem sendo discutido e implementado desde a década de 90. O objetivo principal desse movimento é promover a participação social concreta das pessoas com necessidades especiais.o principio da inclusão defende que a sociedade deve fornecer as condições para que todas as pessoas tenham a possibilidade de ser um agente ativo na sociedade.

2.5. A sociedade e a deficiência visual

Segundo Sant’Anna (1988), a sociedade comporta-se de modo a reivindicar como normais os padrões da classe dominante, impondo uma exigência externa aos indivíduos cujas existências apresentam-se como algo indesejável, como desviantes. Ser deficiente significa, pois, ser não-eficiente, não-produtivo e não-adequado aos fins maiores.

A concepção funcionalista de sociedade faz com que a mesma seja vista como um corpo estruturado, com órgãos, e onde cada órgão tem uma função social muito precisa. Da mesma forma que no corpo humano, os órgãos devem se relacionar entre si, trazendo uma harmonia fisiológica para esse corpo. Para que se mantenha o equilíbrio, não devem existir órgãos estragados ou em mau funcionamento. Nas palavras de Ribas (1983, p.15), um corpo com órgãos deficientes não é um corpo social, bem-estruturado e em ordem. Dessa forma, não é toda a sociedade que estaria fragmentada, mas apenas uma parte dela seria considerada fora do normal.

Segundo a Associação de apoio comunitário – AMAC, uma entidade de cegos que visa promover e realizar a educação, reabilitação e profissionalização de todas as pessoas com deficiência da visão, integrando-os à sociedade. Evidenciando a importância de oportunizar ao deficiente, mão-de-obra qualificada, para que o mesmo possa competir no mercado de trabalho. Para isso cabe a sociedade cooperar e dar oportunidade para que esses indivíduos, que têm limitações em seu relacionamento com o mundo, possam desenvolver e usufruir de toda a sua capacidade física.

Segundo Sassaki e outros (1997) deste modo têm com pré-requisito a reestruturação da sociedade para que a pessoa portadora de deficiência consiga exercer seus direitos. As ações inclusivas devem estar presentes em todos os aspectos da vida do indivíduo, tais como no campo, laboral, esportivo, recreativo, entre outros. Para ele, pelo modelo social da deficiência, os problemas das pessoas com necessidades especiais não estão nela tanto quanto estão na sociedade. Assim, esta é chamada a ver que cria problemas para as pessoas portadoras de necessidades especiais, causando-lhes incapacidade ou desvantagem.

Tais fatos podem ser observados no desempenho de papeis sociais em virtude de seus ambientes restritivos, suas políticas discriminatórias e suas atitudes preconceituosas que rejeitam a minoria e todas as formas de diferença, seus discutíveis padrão de normalidade, sua quase total desinformação sobre necessidades especiais e sobre direitos das pessoas que têm essas necessidades.

Cabe, portanto, a sociedade eliminar todas as barreiras físicas, programáticas e atitudinais para que as pessoas com necessidades especiais possam ter acesso ao serviço, lugares, informações e bens necessários ao seu desenvolvimento pessoal, social, educacional e profissional.

Fletcher (1996), citado por Sassaki e outros (1997), explica que o modelo social da deficiência, focaliza os ambientes e barreiras incapacitantes da sociedade e não as pessoas deficientes. O modelo social foi formulado por pessoas com deficiência e agora vem sendo aceito também por profissionais não-deficientes, enfatizando os direitos humanos e a equiparação de oportunidade.

3. Metodologia

3.1 – Tipo de Pesquisa

Esta pesquisa foi realizada através de uma análise descritiva de levantamento, com uma abordagem qualitativa.

3.2 – Local

O estudo foi desenvolvido em uma instituição Federal, do Estado do Rio de Janeiro – RJ, com alunos do segundo segmento do Ensino Fundamental, do Instituto Beijamin Constant – IBC.

3.3 – Fontes de Informações

Foram utilizados como fontes de informações, para a realização deste estudo, livros, periódicos, revistas, sites da internet entre outros.

3.4 – Coleta e Análise de Dados

A coleta de dados foi realizada através de um roteiro de entrevistas semiestruturadas realizadas pelo pesquisador com alunos do IBC, em aulas de conhecimento corporal. Tais atividades justificam pelo fato de os alunos deficientes visuais precisarem perder o medo de sua deficiência, identificar suas limitações e participar de diferentes modalidades de aulas práticas.

O conteúdo desta entrevista visa analisar o que é,quais as causas,quais as principais dificuldades, limitações dos alunos e,como alcançar a inclusão social dos mesmos.

Foram entrevistados alunos cegos e com baixa visão.

4. Análise dos Dados

As informações foram obtidas através de um roteiro de entrevista para os alunos da instituição escolar participante.

Para cada um dos questionamentos colhidos nos depoimentos, organizamos quadros e gráficos com as respostas dessas perguntas. Em seguida analisaremos os dados obtidos.

De acordo com as respostas obtidas , podemos dizer que 60% dos alunos do IBC só praticam atividades físicas dentro da instituição, enquanto 30% às vezes a praticam fora da instituição e 10% praticando-as.

Quando perguntado se praticavam algum esporte adaptado 50% dos alunos disseram que sempre estão praticando os que são oferecidos pela instituição; 30% dos alunos nunca praticaram, sendo que somente 20% fazem uso deles visando a ocupação do tempo livre.

Nesta pergunta os alunos tiveram certa dificuldade em reponde-la. Quando perguntados sobre o que entendiam sobre a prática de atividade física, observamos uma certa dificuldade dentre as opções de resposta; 30% dos alunos disseram que a atividade física traz benefícios à saúde; 10% não sabiam como explica-la, mas afirmam ser algo que eles gostam muito de fazer; 10% tratam como uma coisa para distrair a mente, enquanto 20% tratam como lazer/recreação e 10% como jogo.

Uma grande maioria (80%) nunca praticou atividade física na comunidade e, apenas, 20% a pratica, constatando, assim, que muitos deficientes sentem grande dificuldade, pela falta de inclusão e pelo despreparo dos docentes com esse tipo de educação.

Quando perguntado se durante as atividades físicas do dia-a-dia, apresentavam alguma variação de humor devido a sua deficiência, 70% dos alunos disseram que não passam por essas variações. Enfrentam o dia-a-dia como uma pessoa normal, permitindo-nos constatar que na cabeça, deles podem fazer tudo, sem ficar botando a culpa na deficiência que possuem; 20% dos alunos às vezes, sentem raiva pelo simples fato das pessoas olharem para eles com uma pessoa frágil e, apenas 10% quase nunca sentem raiva e porque muitos não acreditam na suas capacidades.

Das cinco atividades esportivas , encontramos as seguintes preferências: em primeiro lugar ficou a natação com 38% das preferências, constatando que a maioria prefere o esporte aquático como um desafio para si; em segundo o futebol de 5, com 22%; 15% elegeram o atletismo como terceira opção; a quarta com 13% das escolhas estão o judô e, por último, o golbol obtendo 12% das preferências.

20% dos entrevistados disseram que um dos fatores que os dificultam a prática da educação física escolar, é ficar de frente para sol, porque dificulta a visibilidade; 30% disseram que são proibidas de entrar em piscinas com cloro, por orientação dos médicos para que não cause nenhum dano a mais na visão, 10% afirmam ser a má adaptação do ambiente que muito das vezes não é o ideal; 30% disseram que nada os limitam, permitindo-os fazer tudo como se fossem pessoas sem as limitações visuais e 10% desses alunos disseram que ao escurecer a visão fica mais prejudicada.

Dos entrevistados todos sabiam a causa da sua deficiência visual, 50% disseram que foi de uma causa hereditária, ou seja, que adquiriram a deficiência de outros familiares; enquanto 50% disseram que foi de maneira adquirida, causada por acidentes.

A grande maioria, ou seja, 60% dos resultados obtidos são casos únicos na família, observando que muitos deles foram de alguma complicação durante a gestação ou até mesmo negligência dos pais; 10% dos avós; 30% deles herdaram dos pais.

Considerações Finais

Durante o levantamento realizado por nós sobre as investigações de inclusão do aluno deficiente visual na educação física escolar, pudemos observar a importância da mesma. É através destas investigações na Educação Física que podemos considerar que as práticas inclusivas implicam diretamente na formação das pessoas. Os processos culturais aos quais estamos expostos desde que nascemos auxiliam no processo de construção/desconstrução dos estereótipos sobre os deficientes: os portadores e os não portadores de deficiência visual.

Na realidade cotidiana da Educação Física, encontram-se práticas de inclusão que são objetos de ensino e que, quando não são pensados para todos, chamam a atenção sobre os processos culturais vivenciados pelos deficientes visuais.Ou seja, cada qual, vai absorver essas práticas de uma maneira diferente. No futuro, essas representações culturais estereotipadas resultarão em representações sociais diferenciadas para portadores e não portadores de deficiência visual causando, conseqüentemente, o preconceito os deficientes e a sociedade ao qual me refiro.

Nesses processos desenvolvem-se culturas diferenciadas para cada deficiente visual, de tal modo que acabam impedindo uma aprendizagem de inclusão na Educação Física escolar, nas práticas esportivas e, também no lazer. São, muitas vezes, práticas permeadas de preconceitos e imagens estereotipadas tanto para portadores e não portadores de deficiência visual. Porque em nossa sociedade, o corpo e a imagem corpórea são extremamente valorizados e impregnados por uma padronização, que é orientada por normas de conduta e representações sociais distorcidas.

Vivemos em uma sociedade que se mostra ser extremamente separatista e preconceituosa em relação a várias vertentes do cotidiano. Esse preconceito de incluir o deficiente não só na educação física escolar, mas também na sociedade é somente mais um entre os diversos em que estamos expostos. Principalmente, nossas crianças que ainda não tem uma personalidade formada, são as que mais são prejudicadas no seu desenvolvimento humano.

Estas mesmas crianças aprendem e reproduzem como devem desempenhar os papéis que lhe são atribuídos e, conseqüentemente, suas atitudes. Elas demonstram como são influenciados pelos pais, professores e pela sociedade, criando esses estereótipos que vem sendo reproduzidos pela maioria.

Esse é o pensamento que vem se perpetuando nos últimos anos pela nossa sociedade e, que nos tempos atuais estamos tentando modificar para um melhor aproveitamento do desenvolvimento de inclusão.

Referências

ASSOCIAÇÃO MUNICIPAL DE APOIO COMUNITARIO – AMAC. Disponível em: 05 de junho de 2007. Acesso em 11 de setembro de 2007.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DESPORTO PARA CEGOS – ABDC. Legislação. Disponível em: <https://www.abdcnet.com.br>. Acesso em: 11 de agosto de 2007.

BRASIL / MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Subsídios para formulação da política nacional da educação especial. Brasília: Secretaria da Educação Especial, 1993.

BRASIL / SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: educação física. Brasília: MEC/SEF, 1997.

BRASIL. A educação especial no contexto da lei de diretrizes e bases da educação. Brasília: MEC/SEF, 1997.

CIDADE, R. E; FREITAS, P. S. Introdução a educação física e ao desporto para pessoas portadoras de deficiência. Curitiba: UFRS, 2000.

CIDADE, R. E.; FREITAS, P. S. Educação física e inclusão: considerações para a pratica pedagógica na escola. Revista Integração, Brasília, edição especial, p. 26-30, 2002.

DEFICIÊNCIA VISUAL. Classificações da defesa visual: compreendendo conceitos esportivos, educacionais, médicos e legais. Disponível em: <efdeportes.com. br>. Acesso em: 25 de agosto de 2007.

DEFICIÊNCIA VISUAL. Informações básicas sobre deficiência visual. Disponível em: <https://www.entreamigos.com.br/textos/defvisu/inbadev.htm>. .Acesso em: 31 de agosto de 2007.

FUNDAÇÃO DORINA NOWILL PARA CEGOS – FDNC. Disponível em: 19 de Maio de 2006. Acesso em 15 de setembro de 2006.

FUGITA, M. A. Percepção do próprio andar, de nadadores deficientes visuais e nadadores videntes. 2002, 81f. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Educação Física. São Paulo: Universidade Prebisteriana Mackenzie, 2002.

  • Tema: Inclusão do Aluno Deficiente Visual na Educação Física Escolar
  • Instituição: Universidade Augisto Motta-Unisuam
  • Autor: Evandro da Silva Rocha

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MONOGRAFIA: A CRIANÇA E A CONSTRUÇÃO DA LEITURA E ESCRITA

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A Criança e a Construção da Leitura e Escrita

“O homem é um ser essencialmente social e histórico que, na sua relação com outros, em uma atividade prática comum, intermediado pela linguagem, se constitui e se desenvolve enquanto sujeito.”

Bakhtin

RESUMO

A CRIANÇA E A CONSTRUÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA

A presente monografia tem com objetivo levantar algumas questões sobre a construção da leitura e da escrita e a formação de professores, buscando compreender não só os fatores que têm contribuído para o fracasso escolar das crianças, como também verificar as possibilidade de a escola garantir a todos, indistintamente, o direito de se tornarem leitores e escritores, com seu sucesso.

A monografia foi baseada em pesquisa bibliográfica, aliada aos estudos das experiências apresentadas em sala de aula, no Curso de Especialização em Alfabetização, sobre a leitura e a escrita. A partir dos autores pesquisados, Bakhtin (1998), Smolka (2003), Cagliari (2002), Melo ( 2000 ), Braggio (1992), Silva (1995), Ferreiro (2001), Soares (1987), Geraldi (1986), entre outros, foi possível elaborar uma reflexão sobre o preconceito social aos diferentes dialetos, a concepção da escrita como sistema de código e de representação, a concepção construtivista e sócio-interacionista de aprendizagem tendo em vista a necessidade de trabalhar a leitura e a escrita como prática social e discursiva.

No primeiro capítulo, elaboro um estudo dos autores pesquisados que ressaltam que, por falta de uma explicação cientifica para a causa do fracasso os professores jogam a culpa na criança pelo seu baixo desempenho , atribuíam-lhe uma suposta deficiência lingüistica , acreditam que, em razão da sua condição de vida adversa, a criança chega à escola com uma linguagem distante da língua escrita, acarretando-lhe dificuldade na aprendizagem. Isso representa um preconceito aos diferentes dialetos que as crianças falam em seu contexto social, ou seja, o problema não está na criança mas na escola reprodutores da sociedade, que não sabe lidar com as diferenças lingüisticas e culturais.

A criança que não tem acesso à prática de leitura e escrita em casa fica em desvantagem diante daquela que vive em um ambiente letrado ,mas todas têm capacidades cognitiva de aprender, a se tornarem leitoras e escritoras. Discuto ainda que a linguagem é um fenômeno social construído na interação verbal em gênero discursivo o qual deve ser tomado como objeto de ensino.

O segundo capítulo analisa os métodos tradicionais de alfabetização que tratam a escrita como código fechado e a aprendizagem como técnica, privilegiam os aspectos gramaticais e desprezam os aspectos semânticos, ou seja, a criança é tratada como tábula rasa que deve assimilar tudo sem nenhuma crítica.

De acordo com as novas teorias, a escrita é um sistema simbólico de representação e a sua aprendizagem deve se constituir em uma construção pela própria criança. A língua é assim, um produto cultural carregada de significado e construída na interação social. A aprendizagem deve ser significativa para o leitor para que possa participar da construção de sentido que o texto suscita. Nesse sentido, deve-se ensinar a língua a partir de texto (discurso), unidade de sentido que permite a interlocução entre professor, aluno e a sociedade na produção do conhecimento.

As novas teorias que têm como principais representantes Ferreiro, discípula de Piaget e Luria, discípula de Vygotsky, trouxeram grades avanços e inovações para o sistema educacional. A partir dessas pesquisas, pode se repensar, sobre novas bases, o ensino da língua e abandonar as práticas tradicionais. Porém, as idéias de Ferreiro vêm sofrendo algumas críticas por partes de alguns autores como Silva (1995), Smolka (2003), Melo (2000), Geraldi (1985) e outros, que ressaltam em suas pesquisa que Ferreiro estava preocupada em saber o que a criança consegue fazer sozinha sem ajuda do outro, focalizou os aspectos cognitivos na construção do conhecimento. Por outro lado, Luria ( 2003 ), numa perspectiva sócio- histórica, em suas pesquisas, procurou considerar a influência do meio cultural , o papel do outro, a natureza do conteúdo no processo de construção da escrita da criança, e afirma que, dependendo da experiência de vida, a criança passa de maneira diferente pelo processo de aprendizagem.

Smolka (2003) afirma também que, o outro como interlocutor influencia e muda o rumo de desenvolvimento da escrita da criança. Apenas a interação da criança com a escrita na instituição escolar não é suficiente para o processo de aprendizagem, há todo um processo de dominação e de privilégio, que precisa ser considerado, isso pressupõe que o professor esteja qualificado para lidar com esse processo para enfrentar as diferentes situações que a prática pedagógica lhe apresenta.


INTRODUÇÃO

Muito se tem discutido a respeito do processo de leitura e escrita . Na tentativa de explicar como se constitui sua aquisição na escola, o que pensam os educadores e a criança sobre esse objeto e quais os fatores que contribuem para o fracasso na e da escola, muitos autores têm elaborado questões que tornam possível repensar a prática escolar.

Diante dessa realidade, no primeiro capítulo, – O ensino da língua escrita e o fracasso escolar – procurei mostrar através de alguns autores como Soares (1987), Cagliari (2000), Melo (2000) Lemle (2003), Possenti (2000), Souza (2003) que, por falta de uma explicação cientifica para a causa do fracasso escolar, os educadores jogam a culpa na própria criança pela sua dificuldade, atribuindo-lhe uma suposta “deficiência lingüística e cultural”, porém pesquisas demonstram que o problema não está na criança, mas na estrutura social desigual que não dá condições para que professores escola lidem, competentemente, com as diversidades culturais e lingüísticas de suas crianças. A língua é construída na e para a interlocução no processo dialógico discursivo e que não tem sentido ensinar de forma fragmentada.

No segundo capítulo,- Alfabetização: do ensino tradicional ao sócio-interacionismo – abordo com base em Ferreiro (2001) e outros autores, a questão de que os educadores têm uma concepção equivocada da escrita tratando-a como sistema de código fechado onde a aprendizagem se dá de forma mecânica na relação grafia e som, dificultando o desenvolvimento da criança na aprendizagem da leitura e escrita. Para essa autora , a escrita é um sistema de representação e a aprendizagem deve se constituir em uma construção pela própria criança.

Também Barbosa (1990), ressalta que os métodos tradicionais de alfabetização tratam a língua escrita de forma fragmentada, desvinculada do contexto de produção , ficando presos aos aspectos gráficos ,letras, silabas e som, desprezando a construção de sentido, e que esses métodos alfabetizam mas não formam leitores e escritores. Na visão de Braggio (1992), por trás desses métodos existe uma concepção de linguagem e de homem, baseado na filosofia positivista e da ciência behaviorista que considera válido para ciência apenas os aspectos que podem ser observados, desprezando portanto os aspecto de compreensão e sentido no ato de ler e escrever.

Segundo os autores, Melo (2000), Geraldi (1985), Abaurre (2000), Smolka (2003) e outros, a língua é um produto cultural construída na inter-relação humana, carregada de significado. Nesse sentido, deve-se direcionar o ensino da escrita a partir de texto (discurso), unidade de sentido com enunciado completo.

Ferreiro também vale ao pesquisar sobre essa temática, procurou saber como a criança aprende a ler e escrever, e seus estudos nos trouxeram grande contribuições, mostrando que os professores têm uma concepção equivocada da língua escrita e uma imagem empobrecida da criança que aprende, e que as mudanças necessárias para enfrentar, sobre novas bases o ensino da língua, não passam por questões de métodos. É preciso mudar o eixo por onde se passas as discussões. Ferreiro ao deslocar o eixo de como se ensina para como se aprende, suas idéias apresentam como uma revelação conceitual, demandando abandonar as praticas tradicionais de ensino

Para Smolka (2003), Silva (1993), Melo(2000) as pesquisas de Ferreiro e de Luria sobre a construção da língua escrita das crianças, trouxe grande avanços e inovações para o ensino da leitura e escrita, porém apesar de ambos tratarem do mesmo tema, seus olhares possuem perspectivas diferentes. Ferreiro fundamenta-se em Piaget, que vê o sujeito pelo lado biológico centrado no eu, na construção da escrita.

Luria discípulo de Vygotsky, numa abordagem sócio-histórica, vê a criança com ser social e o conhecimento como o resultado de uma construção mental mediada pelo outro através da linguagem. As duas teorias influenciam no modo de trabalhar a língua escrita com criança em sala de aula.

Enquanto Ferreiro preocupa-se em saber o que a criança consegue fazer sozinha sem ajuda do outro , Luria enfatiza a influência do meio cultural , o papel do outro como mediador que interfere e muda o rumo da construção da escrita da criança. Apesar das diferenças, ambos têm algo em comum: todos vêem a criança como construtora do conhecimento.

Um outro ponto relevante que Smolka (2003,p.66), chama a atenção, está relacionado à necessidade de se trabalhar a leitura e a escrita como práticas discursivas e dialógicas, onde a criança escrevendo, lendo, com e para o outro, apropria-se das convenções sociais da escrita e concebe a escrita com prática dialógica, ou seja, a criança aprende a dizer o que pensa e o que deseja pela escrita, na elaboração do discurso interior. Porém, de acordo com a autora, a escola ainda está muito atrasada nesse processo, os professores não têm compreendido as propostas das novos teorias, havendo uma distância entre o discurso e a prática.

Nesse sentido, analiso, no terceiro capitulo, – Formação de professores e o ensino da leitura e da escrita – a necessidade de se repensar os cursos de formação de professor que vêm sofrendo crítica por não proporcionar uma formação sólida, para o encaminhamentos de propostas condizentes com a realidade brasileira. Muitos, professores usam palavras como “construtivismo”, “sócio-interacionismo”, mas, na prática, não sabem o que essas teorias significam.

Ficam perdidos e os alunos também perdidos nos entremeios de tantos “ismos”, impostos de cima para baixo. É necessário, portanto, repensar as políticas públicas para educação e, principalmente, para os projetos de alfabetização. Para isso, é de fundamental importância cursos de formação de professores com qualidade e também condições apropriadas de trabalha que dignifiquem a profissionalização docente.


CAPÍTULO I

O ENSINO DA LÍNGUA ESCRITA E O FRACASSO ESCOLAR

O meu primeiro contato com o mundo da leitura e escrita se deu de forma marcante e significativa contribuindo de certa forma para a escolha deste tema: a criança e a construção da leitura e escrita.

Tudo começou da seguinte forma: o meu pai lia para mim e meus irmãos, todas as noites, inúmeras histórias de literatura de cordel e contava oralmente os mais variadas contos populares, contos de fadas, fábulas, lendas, adivinhações , superstições, piadas e outros.

Lia também o almanaque que vinha com a história do Jeca Tatu, signos das pessoas, histórias em quadrinhos, cruzadinhas, caça-palavras e outros gêneros. Ele era uma pessoa apaixonada por leitura e, assim, tudo que pegava, bula de remédio, jornal, rótulo de embalagem, livros, qualquer material escrito, lia e explicava para nós o significado. E mais: recebia e escrevia muitas cartas para seus amigos, parentes distantes, e nós ouvíamos as leituras dessas cartas e participávamos desse ambiente de muita escrita.

Foi com o meu pai que eu despertei o gosto pela leitura e aprendi o significado e a função da escrita. Porém, na escola não tive a oportunidade de me desenvolver adequadamente, pois o processo se deu de forma sofrido baseado na memorização e decodificação das palavras, o que me fez até sentir medo da leitura e da escrita. O que eu aprendi fora da escola nada valeu dentro da escola.

Pude perceber com a minha história de leitura, que as tradições orais representam conteúdo e recursos didáticos da melhor qualidade para trabalhar a oralidade e a escrita da criança de forma significativa e motivadora. Mas que é uma forma também de valorizar a cultura popular e o conhecimento do aluno e superar as dificuldades no processo ensino aprendizagem. Pesquisas demonstram (Smolka, 2003) que essas narrativas possibilitam o desenvolvimento da criança como um todo. Por meio dos contos dos casos, as crianças podem aprender a lidar com as suas próprias emoções sentimento e desejos, e ainda elaboram o seu mundo da imaginação, indo além do sentido habitual das coisas, ampliando o conhecimento de si e do mundo.

Atualmente, em razão do tempo e da cultura modernas, as famílias perderam esses valores, os pais não têm mais tempo para ficarem juntos, lerem e contarem história para os filhos. Agora mais que nunca, a escola necessita proporcionar um ambiente alfabetizador para que a criança possa desenvolver adequadamente a leitura e escrita e constituir-se como leitora e escritora.

Esse é uma grande questão, pois como se vê o ensino da língua escrita tem sido ultimamente o centro de discussões e debate no sentido de melhorar a formação de leitores e escritores . Os jornais, as pesquisas vêm denunciando o fracasso da grande maioria dos estudantes que passam oito, dez anos na escola e não sabem ler e escrever um texto adequadamente .Não sabem fazer uso competente da leitura e escrita no seu dia-a-dia para resolver seus problemas, buscar informações em um jornal, escrever um artigo, carta, ofício ou preencher formulários.

A escola, de modo em geral, não tem despertado no aluno o gosto e o prazer pela leitura e escrita. A criança, quando inicia sua vida escolar demonstra muito interesse e muita expectativa em relação à escola e aos professores, mas, aos poucos, vai perdendo o entusiasmo. Por que tudo isso acontece? Por que as crianças não aprendem? Por que a maioria tem tanto medo e dificuldade de ler e escrever? E o que a escola e o professor podem fazer para superar essas dificuldades e oferecer um ensino de qualidade? E ainda, como trabalhar a língua escrita para que a criança tenha um bom desempenho? Como a escola pode garantir a todos o direito de aprender ? Como tornar essas crianças leitoras e escritoras?

Hoje, estudos realizados, com base nas teorias construtiva e sócio-interacionistas entendem, que conhecer como se dá o processo de aquisição e desenvolvimento da língua escrita pela criança, no início de sua aprendizagem, e entender a natureza desse objetivo, a língua escrita, são questões fundamentais que o professor precisa saber, para entender e respeitar o processo e desenvolvimento da criança. A partir daí, o educador tem condição de intervir e propor atividades adequadas que favoreçam o processo de aprendizagem da criança. Para isso, o professor precisa de conhecimentos teóricos sólidos para embasar sua prática. Portanto, ele precisa de uma boa formação inicial e continuada, questão essa que será retomada mais adiante.

O que se sabe é que um dos maiores problemas é antes de tudo político, uma vez que a escola e a prática pedagógica do professor não são neutros, ambos têm um grande papel decisivo. A maneira como professor concebe o ensino da língua pode contribuir positivo ou negativamente para o desenvolvimento da aprendizagem do seu aluno, pode trazer tanto o sucesso como o fracasso.

A partir do discurso do senso-comum, a grande maioria dos educadores reclamam que as criança não aprendem porque não têm interesse. Dizem ainda que os alunos têm problemas, não sabem resolver atividades simples, confundem letras, vêm de um meio social que não favorece a aprendizagem. Dizem ainda que muitas vezes, os pais não sabem ler e escrever e não podem ajudar os filhos nas tarefas escolar, e que muitos ainda não motivam os filhos para aprender. Assim, os professores jogam a culpa nas crianças e no meio cultural pelo seu fracasso e nada fazem para superar as dificuldades. Nesse sentido, há um jogo em relação ao fracasso e, nesse jogo, quem perde e o aluno .

De acordo com Soares (1987, p.20), e Weisz (2004, p.30), por falta de explicações científicas para as causas do fracasso na e da escola em garantir a todos, indistintamente, o direito de aprender, é atribuído ao próprio aluno, a sua suposta deficiência cultural e lingüística e seu suposto déficit cognitivo, fatores considerados responsáveis pelo seu baixo desempenho na aquisição da leitura e escrita, uma vez, acreditava-se que a criança não aprendia por falta de pré-requisitos. Além disso, acreditava-se que com a chamada democratização do ensino, a escola passando a lidar com um número cada vez maior de crianças, teria, em razão das condições de vida de sua clientela várias linguagens diferentes da língua escrita padrão, acarretando dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita.

Porém, pesquisas têm demonstrado que essas crianças têm adequado desenvolvimento cultural e lingüístico, e que é a escola que apresenta dificuldade para lidar com as diversidades culturais e lingüísticas das crianças. Essa teoria do déficit, que tem como principal representante Bernstein (1987, p. 22), não apresenta fundamento e não tem sustentação. Cagliari (2002, p.19) argumenta que, se a criança aprendeu a língua oral é também capaz de aprender a escrita, se não aprende é porque a escola não sabe ensinar. E que se a criança tem vontade para ir à escola, tem vontade também para aprender.

A escola, portanto, não pode tratá-la, como um ser fracassada . Essa criança, na visão desse autor, tem tanta capacidade de aprender como aquela que têm tudo na vida, à sua disposição. A criança aprende a linguagem oral sem necessidade de pré-requisito, para isso, basta ser exposta ao mundo da linguagem e conviver com pessoas que falam a sua língua materna.

Assim, atribuir baixo desempenho da criança na aquisição da língua escrita à sua suposta deficiência cultural e lingüística representa um grande preconceito para com as crianças das classes populares e falta de conhecimento sobre como a língua funciona. Na concepção de Cagliari (2002, p. 84), Soares (1987, p.41), Smolka (2003, p.79) e Melo (2000, p. 1), não existe língua superior e inferior, existem línguas diferentes, assim como há culturas diferentes entre as pessoas. A língua é um produto cultural, construída na inter-relação com o outro e cada grupo social possui um jeito de falar, as diferenças não comprometem a comunicação, desde que sejam bem estruturadas.

O modo de as pessoas falarem difere um dos outros, mas são compreensíveis. Porém, a sociedade discrimina os diferentes dialetos e privilegia um em detrimento do outro, elege o dialeto imposto como padrão como sendo único modelo válido, a partir do status econômico e social dos seus falantes.

De acordo com Soares (1987, p.56), o critério de “certo” ou “errado” é uma questão política, econômica e social. Em uma sociedade capitalista, dividida em classe, há imposição dos valores da classe dominante sobre a dominada. A escola como parte da sociedade reproduz esses valores, usa e quer ver usado por todos, a cultura e a língua escrita padrão da elite dominante. Assim, na sala de aula, o professor, ao discriminar a forma de falar das crianças, contribui para o seu fracasso uma vez que nega toda a sua cultura e identidade lingüística. Nesse mesmo enfoque, Cagliari (2002, p.20) continua enfatizar que a criança que entra na escola e fala um dialeto estigmatizado pela sociedade leva um grande choque, ao perceber que tudo que ela conquistou e sabe sobre a língua é desconsiderado e, descobrindo logo que não pode corresponder ao que o professor espera dela, nesse jogo desonesto, o melhor que pode fazer é desistir. Evade aumentando o número de crianças consideradas “fracassadas”.

Assim, as crianças que pertencem às classes dominantes ao chegarem à escola, não encontram dificuldade de aprendizagem da língua escrita pois já têm o domínio prático, aprendido com convívio do seu meio familiar. Apenas são levadas a refletir, sistematizar sobre aquilo que já sabem.

Por outro lado, por falta de oportunidades as crianças pertencentes às classes desfavorecidas não têm esse conhecimento prático sobre a língua padrão e a escola apenas as leva a reconhecer que existe uma maneira de falar e escrever considerado legítima, mas não a leva a conhecer, produzir e consumir, isto é, a fazer o uso prático daquela língua padrão, ou seja, a função da escola é levar a criança ao seu desempenho lingüístico, tanto no que se refere à expressão oral e escrita, possibilitando-lhe aquisição da linguagem padrão, sem, contudo, subestimar a língua falada pelo seu grupo social.

O domínio da língua padrão, conforme Possenti (2000, p.40), consiste, em especial, na aquisição de determinado grau de domínio da escrita e da leitura, isto é, que o aluno consiga escrever sem, traumas, diferentes tipos de textos e ler produtivamente também textos variados. É o que hoje determina, o nível de letramento que, de acordo com Soares (2001, p.23), significa a habilidade do sujeito saber fazer uso competente dos diferentes tipos de materiais escritos, compreendê-los e extrair informações para poder viver em uma sociedade que valoriza a informação.

Possenti (2000, p.48) ainda enfatiza que o domínio da linguagem escrita de acordo com o modelo padrão, não se aprende através de exercícios, atividade de cópia e memorização, nem através do ensino de gramática como costuma fazer geralmente os professores. A competência da leitura e escrita se constrói através de prática significativa, contextualizada e efetiva de textos variados.

Para Lemle (2003, p.56) e Cagliari (2002, p.82), a escola deve discutir as convenções sociais da escrita , assim como as questões políticas, e levar o aluno a entender como a língua funciona na sociedade, explicando que o dialeto da sua comunidade é tão bom como o dialeto de prestígio.

Mas que dependendo da situação em que é usado um ou o outro, ou seja, a forma de falar, de acordo com o lugar e o status do ouvinte numa sociedade capitalista, acarreta conseqüências políticas, econômicos e sociais. Assim, se o aluno deseja participar de uma sociedade letrada é preciso dominar a linguagem padrão, pois é com ela que ele será avaliado tanto na escola como fora dela, nas diferentes esferas sociais.

E é de fundamental importância, nesse contexto, ensinar a língua padrão como umas das formas de acesso das classes populares a um saber que está sobre o domínio da classe favorecida. Portanto, é tirar o privilégio, o domínio de um grupo sobre o outro. É buscar um ensino comprometido com a justiça social e o bem comum de um povo e vale lembrar Soares (1987, p.78) quando enfatiza que:

Um ensino de língua materna comprometida com a luta contra a desigualdade social e econômica, reconhece, no quadro dessa relação entre escola e sociedade, o direito de que têm as camadas popular de apropriar-se do dialeto prestígio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a dominá-lo, não para que se adaptem as exigências de um a sociedade que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a participação política e a luta contra a desigualdade social.

A escola tem a função social de proporcionar a todos o desenvolvimentos das habilidades lingüística para que o sujeito possa participar da sociedade de igual para igual, tendo as mesmas oportunidades na vida, e assim, possa sair da exclusão e exercer a cidadania.

Soares (2001, p.37), em um outro trabalho, ao falar sobre essa questão, explica que quando as pessoas aprendem a ler e escrever, quando participam de práticas sociais de leitura e escrita elas se tornam diferentes, mudam seu estado e condição, isto é, não são as mesmas de antes, quando não sabiam ler e escrever. A apropriação da escrita faz com que as pessoas mudem seu lugar na sociedade, sua relação com as pessoas e inserção na cultura, isto é, modificam a forma de viver. Além de tudo isso, a leitura e escrita ainda transformam os aspectos cognitivos, as pessoas passam a ter controle sobre o que falam, ampliam o vocabulário e modificam a condição lingüística.

O domínio da língua padrão representa, de certa forma um dos meios de participar do exercício do poder; através dela pode-se fazer valer seus direitos, participar da vida econômica, política e culturais e usufruir dos bens socialmente produzidos.

Cagliari (2002, p.78) salienta que, por meio da linguagem, pode-se convencer o outro, fazer promessa, ameaça, mentir, pode confortar as pessoas e aliviar suas dores. Portanto, é pelo uso da linguagem verbal e não verbal que se estabelecem direitos e deveres e influências sobre o outro e tudo mais. Enfim, a linguagem é um instrumento humano de grande valor, para tanto, é preciso saber usá-lo.

Nessa perspectiva, acredito que o uso da linguagem representa uma das porta de saída, principalmente, para os menos favorecidos. Por outro lado, a sua apropriação por todos indistintamente significa para as classes que estão no poder uma ameaça aos seus privilégios e sua dominação, e é nesse sentido que a história tem nos mostrado as diferentes formas de bloqueios para impedir o acesso à escrita de forma democrática, pela maioria da população. Mas, se a sociedade é formada por pessoas, de classes e pensamentos diferentes, num processo dialético, há por um lado, os que trabalham pela manutenção do sistema e por outro lado, há também os que lutam pela transformação da sociedade, desejando-a livre, democrática, onde haja constituição de muitos leitores e escritores e nesse processo, o trabalho de cada um que busca mudar, vai construindo uma corrente transformadora.

Souza (1987,p.69) ao analisar esse processo de luta pela transformação ou manutenção da estrutura opressora, ressalta que numa sociedade capitalista, formada por força antagônica, marcada por injustiça na distribuição desigual dos bens, a prática pedagógica do professor que é fundamentada na sua concepção política e ideológica não é desvinculada desse processo. O modo como o educador atua , exerce sua profissão, revela sua visão de mundo, sua opção política, e de que lado está, se a serviço da força conservadora que contribui para manutenção das estruturas injusta ou a serviço da força progressista que luta para a transformação do sistema.

Uma outra questão importante levanta por Vygotsky e Bakhtin, está relacionada ao fato de que a escrita é um sistema simbólico complexo e que o homem introduz no mundo símbolo através do sistema mental superior influenciado pela cultura e regido pela lei da internalização. A atividade mental, se dá primeiro no nível interpessoal e a sua estrutura resulta da apropriação, elaboração e transformação de modo de socialização. Nesse processo o signo tem função de mediador indicando o modo social de comportamento em modo pessoal de pensamento.

Nesse sentido ao interpretar Bakhtin, Freitas (1994, p.138) ressalta que:

O centro organizador e formador da atividade mental não está no interior do sujeito, mas fora dele, na própria interação verbal. Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas é a expressão que organiza a atividade mental, modelando e determinando a sua orientação. A atividade mental do sujeito, da mesma forma que sua expressão exterior, se constitui a partir do território social. Assim, a situação e os participantes mais imediatos determinam a forma e o estilo ocasionais de enunciação. Os estratos mais profundos da sua estrutura são determinados pelas pressões sociais substanciais e duráveis a que está submetido o locutor.

Portanto, enquanto Piaget procura analisar a relação dos esquemas mentais com o objeto na construção do conhecimento, Bakhtin e Vygotsky procuram demostrar a influência do meio cultural, do outro, da linguagem na relação do sujeito com o objeto, na formação das estrutura mental e no processo de construção do conhecimento. Freitas (1994,p.139) ressalta que, o grau de consciência do sujeito é proporcionado pelo seu grau de orientação social, quanto mais organizado e diversificado for a coletividade, onde o sujeito se orienta, mais distinto e complexo será seu mundo interior.

Nesse sentido, a aprendizagem da língua escrita em sala de aula numa dimensão discursiva, mediado pela palavra e pelo outro, num processo interativo, marca a atividade mental da criança, pois o seu modo de pensar está impregnado no contexto e na dinâmica sócio-cultural. Conforme Móre (2000, p.71) é importante que a criança tenha uma relação de consciência no seu processo de aprendizagem da língua escrita, para que ela possa internalizar, monitorar e transferir aprendizagem, e assim, conseguir alcançar um grau mais elevado no domínio da linguagem.

A compreensão da língua escrita vai ocorrer em função da língua falada, que funciona como elo mediador e vai deixando de ter esse função quando a criança assume a escrita como prática discursiva. A dimensão discursiva se faz presente possibilitando a compreensão da escrita do outro, e é através do outro que a criança percebe a necessidade de produzir uma escrita compreensível; sem a presença do outro, a criança não se desenvolverá nos seus primeiros rabiscos.

De acordo com Móre (2000, p.71), a escrita é uma objeto social construído ao longo da história da humanidade, surgida da necessidade de comunicação, interação e intercâmbio social. Representa o esforço da construção humana e a capacidade do seu desenvolvimento mental, portanto, é portadora de significação, a sua apreensão não é decodificação, mas se faz presente o aspecto semântico de compreensão. A criança precisa entender a questão simbólica, compreender que a palavra representa um outro contexto e que a escrita é a representação da fala.

Para Móre (2000, p.72), o processo de internalização envolve mediação compartilhada de significado do instrumento que irá proporcionar a operação abstrata do pensamento, à medida que esse processo é internalizado, passando a ocorrer sem a ajuda do outro , a atividade mediada transforma em processo intrapsicológico dando origem a atividade voluntária. No processo de ensino da língua escrita, é importante que o código escrito seja trabalhado de forma, intensa e sistemática, para que ocorra internalização, e a crianças sejam capazes de alcançar o desenvolvimento necessária e possa caminhar com autonomia. A criança aprende de forma mais eficaz através de atividade coletiva, compartilhada e quando é acompanha e orientada por alguém mais experiente, pois o nosso comportamento é mediado, funciona respondendo significado que atribuímos a situação.

O processo de internalização envolve reconstrução individual das ações do plano intersubjetivo, nesse processo por meio da palavra e do outro a criança vai organizando seu próprio pensamento. A criança não realiza a construção simbólica no processo do conhecimento, apenas na interação com o objeto, a elaboração cognitiva passa pela interação com o outro através da linguagem.

Essa autora ainda continua dizendo que a palavra é um instrumento privilegiado na construção do saber, o quê, e como é falado, ou deixado de falar, na relação professor-aluno na dinâmica do ensino e aprendizagem, têm efeitos relevantes, que contribui para o bom progresso da criança ou não. A língua é o meio mais importante para desenvolvimento da consciência, por meio da palavra permite abstração generalizante como veiculo de pensamento e o homem faz transição do sensorial ao racional.

Em relação a esse fenômeno da linguagem, Freitas (1994, p.134) argumenta que:

A palavra, como um fenômeno ideológico por excelência, de acordo com Bakhtin, exerce a função de signo, constituindo-se no modo mais puro e sensível de relação social. Sendo produzia pelos próprios meios de organismo individual, a palavra tem um papel de material semiótico da consciência, determinando o conteúdo da vida interior, do discurso interior. A consciência não poderia se desenvolver se não dispusesse de um material flexível, veiculável pelo próprio corpo. Esse material é a palavra que, como instrumento da consciência, acompanha toda criação ideológica e esta presente em todos os atos de compreensão. Toda palavra procede de alguém como também se dirige para alguém, construindo o produto da interação do locutor e do ouvinte.

De acordo com Bakhtin, na visão de Freitas (1994,P.140) a palavra é um instrumento humano interativo de expressão de um em relação ao outro, está presente em toda a relação humana. Todo signo não verbal banha-se no discurso acompanhado pela palavra. A língua penetra na vida através de enunciado concreto, a palavra não é uma coisa abstrata, mas mediação, elemento móvel na dinâmica da interação verbal que caracteriza em signo na anunciação concreta de significação.

O sistema tradicional, o subjetivismo idealista e o objetivismo abstrato, tratam a língua como um sistema abstrato, ficam presos a normas e aspectos físicos e estruturais, separando da sua natureza social. De acordo com a visão de Bakhtin, Souza (2003.p.43), relata que a verdadeira substância da língua está no fenômeno da interação verbal enunciativa e não no fenômeno abstrato.

O centro de significação da língua não está nas normas, mas na significação que essas normas adquirem no contexto. Os falantes e ouvintes não comunicam como se ela fosse um sistema abstrato de normas, pois não são palavras abstratas que os interlocutores pronunciam e escutam, mas palavras carregadas de conteúdos ideológicos e vivenciados e significativos. As interações realizam por meio de enunciados que exercem a função de signo ideológico que acompanham os atos de interpretação e compreensão. Souza (2003, p. 42) ainda ressalta que a visão conservadora é um obstáculo a compreensão totalizante da linguagem, contrário a este pensamento conservador, Bakhtin afirma que a língua se constitui no processo dialógico, o ato da fala e seu produto não podem ser explicados somente a partir das condições do sujeito falante, a enunciação tem natureza social e ela se dá sempre numa interação verbal e dialógica.

A concepção de diálogo de Bakhtin, na leitura de Souza (2003, p.43) tem um sentido amplo, não restringe a interação verbal face a face entre interlocutores, está relacionado a diferentes enunciados verbais, tal como o discurso ideológico com o autor através do texto, que são comunicações e vozes que não pertencem ao falante e ouvinte naquele momento. E essa autora ainda afirma que a interação verbal realiza-se por intermédio de enunciados que são variados e heterogêneos.

Em cada troca verbal, o homem elabora tipos relativos de enunciados chamados de gêneros. Ao escrever assim como falar, as pessoas utilizam formas estáveis de enunciados caracterizados em gênero do discurso, os quais estão presentes na vida cotidiana, nas experiências e na vida dos falantes. Sem o gênero não seria possível a comunicação, pois não haveria entendimento entre os interlocutores. A língua é, pois, adquirida por meio de enunciados, discurso organizado em gênero especifico que se adapta às mais variadas situações.

Rojo (2004, p.38) fundamentado na teoria de Bakhtin, declara que o objeto de estudo da língua portuguesa é o texto, porém não deve ser tomado como pretexto para ensinar apenas gramática ou apropriar de qualquer tipo de texto adaptados para determinados fins didáticos. Essa autora ainda afirma (p. 40-44) que recorrer a um conjunto de texto em gênero específico e explorar essa temática, possibilita a apropriação dessa forma discursiva, além de ser um instrumento fundamental no desenvolvimento da comunicação. Os gêneros como forma histórica cristalizada faz a mediação entre a prática social e a atividade da linguagem dos indivíduos.

Os locutores sempre reconhecem nos eventos comunicativos, as instâncias dos gêneros, como o ato de telefonar, dar palestra e outros. O gênero integra as práticas das atividades da linguagem na escola e representa um suporte para a atividade da linguagem nas situações da comunicação, o que funciona como referência para o aprendiz. Ainda considera que tomar o gênero e não apenas o texto como objeto de estudo, é uma maneira de formar sujeito com capacidade comunicativa e discursiva e com habilidade de ação em diferentes contextos que envolvem a prática da linguagem; representa também um modo de produzir, compreender e ler texto em sala de aula.

A prática letrada está relacionado ao domínio dos gêneros por parte do falante, que envolve modalidade de escrita a sua produção e compreensão, como ler um jornal, escrever uma carta, seguir uma instrução por escrito, fazer relatório escrever texto, são práticas que envolvem gêneros específicos.

Assim no processo escolar deve-se ensinar não só a técnica de ler e escrever, mas desenvolver a capacidade de usar a escrita em prática letrada de circulação social. De acordo com Bakhtin (2003, p.41) e Cafieiro (2005, p.13 a 44) a língua é um sistema discursivo, tem origem na interlocução e realiza para a interlocução. Não funciona sempre do mesmo jeito nas diferentes situações de comunicação, portanto, não tem sentido ensinar forma pré-estabelecida, onde o aprendiz apenas siga modelo.

Ela é um objeto construído, manejado, modificado constantemente, pelo sujeito, na interação social, para realizar ação sobre o outro. Nesse sentido ensinar a língua significa ensinar o aprendiz para interagir em diferentes situações sociais, e, nessa ótica, o ensino muda de uma perspectiva transmissiva, reprodutiva, mecânica para uma prática reflexiva.

A  concepção de linguagem de Souza ( 1987, p.69 a 74) está de acordo com a de Soares (1987,p.78) e Bakhtin (1994, p.131 a 141) ao definir que o professor tem que estar comprometido em garantir a todos a aprendizagem da língua escrita de forma que atenda as demanda sociais e exerça sua cidadania no mundo letrado, tem que ter prática pedagógica voltada para a formação de leitor e escritor capaz de ler o texto e o contexto e questionar a realidade. Nessa concepção, a leitura e escrita da criança, para Souza (op.cit.p.72) se constitui em um ato de conhecimento realizado através da ação e reflexão. O conhecimento da criança é avaliado pela sua capacidade de analisar, comparar, sistematizar, interpretar e não apenas memorizar.

Conforme, Martins (1994,p.17), lemos:

Quando começamos a organizar os conhecimentos adquiridos, a partir das situações que a realidade impõe e da nossa situação nela: quando começamos a estabelecer relações entre as experiências e a tentar resolver os problemas que nos apresenta – ai então estamos procedendo leitura, as quais nos habituamos basicamente a ler tudo e qualquer coisa.

Assim como Bakhtin (2003, p.47), Souza (op.cit.p.69) concebe, que o homem é um ser histórico-social, situado no tempo e no espaço, alguém produtor de texto, que tem voz, dialoga, interage, entra em confronto com o outro e que o professor que leva em conta essa realidade, procura no processo de ensino da língua, considerar, problematizar e questionar as necessidades de vida do educando. Nesse sentido, a sua preocupação maior não é só como programa, mas preocupa-se com o aluno contextualizado.

O tempo da criança é ocupado com conteúdo e atividade que desenvolvam o raciocínio, o discernimento, a criatividade, a competência comunicativa e o gosto pela leitura. Assim, tudo isso aumenta a auto-estima, e a confiança, desenvolve o lado afetivo e ainda ajuda a criança a compreender a si mesmo, o outro e o mundo. Também nesse processo, conforme Souza (1987, p.75), a aula se constitui em um diálogo entre educador e educando, mediado pelo conhecimento, um espaço onde a criança, tem a palavra, ouve, fala, lê, escreve, opina e questiona. O conhecimento não vem pronto, é produzido a cada momento e é algo questionável e dinâmico.

Nesse sentido, na construção da escrita, as crianças devem ser construtora do saber e, nesse processo, cabe ao professor organizar a situação de aprendizagem de forma desafiadora e significativa para que a criança possa ter uma ação ativa e reflexiva. As pessoas têm por natureza a vocação de ser sujeito, ter autonomia nos seus atos, em tudo que faz. Assim, quando o professor proporcionar a leitura e a escrita autônoma, a criança, com certeza, se sentirá motivada e terá desejo de aprender cada vez mais , se esforçará para construir seu próprio conhecimento, procurará evoluir nos seus estudos , aprenderá caminhar por si mesmo.

Portanto, no processo de leitura e escrita não se deve dar nada pronto para a criança ,deve deixá-la realizar suas próprias descoberta, com a ajuda do outro; basta o professor orientar, mediar sua aprendizagem. Os gêneros do discurso já abordados por Bakhtin, nos leva a entender melhor o fenômeno da linguagem e abandonar as práticas tradicionais de ensino fragmentado. E é isso que nós educadores, devemos buscar.


CAPÍTULO II

ALFABETIZAÇÃO: DO ENSINO TRADICIONAL AO SÓCIO-INTERACIONISMO

Os autores estudados e a minha prática pedagógica têm me ensinado que, para que a escola possa garantir o ensino competente e crítico da leitura e escrita, é preciso superarmos as práticas tradicionais de ensino, processo sofrido de memorização, em que a criança lê e escreve sem saber para quê, apenas repete modelos predeterminados.

Segundo Ferreiro (2002, p.10), a escrita pode ser concebida como um sistema de código e de representação. Como código, os elementos já vêm prontos e como representação, a aprendizagem se constitui em uma construção pela criança. Ao trabalhar a escrita como código, o ensino privilegia os aspectos preceptivo e motor, relação grafia e som e o significado é desconsiderado. Luria (2003,p.65), afirma que a criança precisa entender que a escrita é um sistema simbólica de representação da realidade, que não tem significado em si, mas representa um outro contexto.

De acordo com Barbosa (1990, p.30), de modo geral, os métodos tradicionais de alfabetização são caracterizados por um sistema fechado e o processo de aquisição da linguagem escrita é visto como algo exterior ao indivíduo. A partir de então, esses métodos fazem uma análise racional dos seus elementos, partindo de aspectos simples para os complexos, ou seja, primeiro aprendem-se as letras e depois as sílabas, palavras e frases.

Nessa perspectiva, a aprendizagem é percebida como o somatório desses elementos mínimos. A criança aprende através da repetição seguindo um modelo pré-estabelecido. A aprendizagem torna-se, portanto, um processo mecânico, repetitivo, não levando em conta o contexto sócio-histórico e nem o desenvolvimento psicológico da criança. Exige-se dela adaptação ao método e não o método a ela. Assim, não leva à criança a compreensão do texto uma vez que é cobrada uma leitura mecânica cuja compreensão é negada, a partir dos exercícios de interpretação de textos, que não permitem que a criança seja sujeito de sua leitura.

Conforme Barbosa (1990, p.7) é um equívoco ensinar a língua escrita a partir de partes menores, letras, sílabas, palavras de forma separadas, pois na vida a criança fala e interpreta, aprende a ler, ver as coisas no seu sentido completo e por inteiro e não parte, por parte. Segundo este autor (p.40), as pesquisas demostram que perceber as coisas por inteiro é mais significativo e relevante para as crianças. Elas entendem com mais facilidade quando têm a visão do todo. Nesse sentido, o texto é mais fácil de compreensão do que letras, sílabas e palavras. Deve-se, portanto, ensinar a partir de textos variados e significativo para as crianças.

As pesquisas na área da leitura comprovam que num lançar de olhos a criança percebe o todo da palavra. Ferreiro (2001, p.12) discordando dos métodos tradicionais, também afirma que as dificuldades que as crianças enfrentam na aquisição da língua escrita são de ordem conceitual e não questão de fácil e de difícil, simples e complexo ou problema perceptivo, como pensam as teorias dos métodos.

No processo de leitura, de acordo com Soligo (2000, p.21), o leitor usa várias estratégias, faz seleção: leitor se atém apenas aos índices úteis, desprezando os irrelevantes; antecipação: prevê o que ainda estar por vir, com base em informação explicita e em suposições, antecipando o significado; inferência: capta o que não está dito no texto de forma explicita, lê o que não está escrito; verificação: controla a eficácia ou não das demais estratégias, confirma ou não as especulações realizadas.

Já para Soares (2001, p.48) o domínio da leitura está na capacidade de o sujeito colocar em ação todos componentes necessários para a demanda da língua numa sociedade letrada. Não basta apenas dominar a técnica do ler e escrever, precisa desenvolver a competência. Ser usuário de uma língua, é saber fazer uso dos diferentes materiais escrito, se orientar e informar, saber falar, ler e escrever textos nas mais variadas situações sociais do mundo letrado. A apropriação do sistema da escrita é um processo complexo, que envolve tanto o domínio do sistema alfabético-ortográfico quanto a compreensão e o uso efetivo e autônomo da língua escrita nas práticas sociais do contexto em que essas práticas são requeridas.

Ler numa perspectiva crítica é fazer julgamento, interpretação, juiz de valor. Nesse sentido, a compreensão do texto é mais importante do que estudo dos aspectos gramaticais. A decodificação é um meio não um fim em si mesmo. Tem que haver a produção de sentido no ato de ler para que o aluno vá se constituindo como leitor dos vários impressos que circulam à sua volta.

Nessa perspectiva , é preciso se ter claro uma concepção de linguagem que oriente o trabalho com a leitura e a escrita. Geraldi (1985, p.43), propõe uma concepção de linguagem, seja verbal ou não, baseada em Bakhtin (1986), que vai muito além da mera decodificação:

A linguagem é uma forma de inter-relação: mais do que possibilitar uma transmissão de informação de um emissor a um receptor, a linguagem é vista como um lugar de interação humana: através dela o sujeito que fala pratica ação a não ser falando; com ela o falante age sobre o ouvinte, construindo compromisso e vínculo que não pré-existiam antes da fala.

A linguagem é um processo construído na interação verbal, entre emissor e receptor, carregada de significados culturais. E, nesse sentido, a aprendizagem da linguagem escrita deve ser significativa para o leitor, para que ele possa participar da produção de sentidos que o texto suscitam.

Essa concepção de linguagem direciona o ensino da linguagem escrita que deve ser realizada a partir do texto, porque representa o enunciado completo, um todo carregado de significado que provoca, compreensão, e consequentemente a formação das estruturas mentais superiores da criança. Isso confirma o que diz Mortatti (2000, p.49):

(…) o texto (discurso) é a unidade de sentido da linguagem e deve ser tomada como objeto de leitura e escrita, estabelecendo-se como conteúdo de ensino, que permite um processo de interlocução real entre professor e aluno.

Percebe-se que o desenvolvimento da língua tanto na modalidade oral como na escrita, dá-se num processo discursivo, dialógico numa relação da criança com o objeto de estudo e o outro, corroborando a fala de Souza (2003, p. 30) que ressalta: “(…) o sujeito não interage nem se comunica com o outro por meio de letras ou de sílabas, mas de enunciados com unidade de sentido.”

Nessa mesma linha de pensamento, Smolka (2003, p.69) ressalta que o ensino tradicional impede a construção competente da língua escrita ao expor a criança aos fragmentos de linguagem. Essa é uma questão que será retomada e discutida logo mais adiante nesse texto.

Braggio (1992, p.7) também alerta que, os métodos de alfabetização se baseiam em uma concepção mecanicista, positivista de educação, de homem e de linguagem. A língua escrita é vista como algo desvinculado da linguagem cotidiana da criança. Um sistema fechado, formado por elementos desvinculados entre si. Os aspectos gramaticais são mais relevantes do que a compreensão do significado do texto. Tem-se uma concepção de linguagem, como um objeto de conhecimento separado do sujeito, sendo ela o foco de análise e o sujeito se reduz a uma tábula rasa, que deve assimilar tudo sem nenhuma crítica.

Esses métodos tradicionais têm como pressuposto teórico, a ciência behaviorista e a filosofia positivista que consideram algo válido para o estudo da ciência, apenas aquilo que pode ser observado e mensurado. Por isso, há a desvalorização dos aspectos de interpretação e reflexão de texto, e preferência pelos aspectos gramaticais, pelos estudos dos elementos mínimos da linguagem como letras, sílabas e sons.

Como se percebe, os métodos tradicionais de alfabetização não favorecem a formação de aluno leitor e escritor crítico, que deve fazer tanto a leitura dos nomes impressos que circulam no mundo como também da leitura desse mesmo mundo.

Buscando entender porque a grande maioria das crianças têm tanta dificuldade em aprender a ler e escrever e de se desenvolver na apropriação e domínio da língua escrita , Ferreiro e Teberosky (2003, p.162) realizaram uma grande pesquisa na América Latina, a partir de 1970, no sentido investigar como aprendem os que conseguem aprender a ler e escrever sem dificuldade, e o que pensam a respeito da escrita os que ainda não se alfabetizaram. E com essa investigação Ferreiro e Teberosky, chegaram a conclusões que deram uma grande contribuição ao processo de aquisição da linguagem escrita. Ferreiro, segundo Mortatti (2000); mudou o rumo das discussões sobre o processo de ensinar a aprender:

Deslocando-se o eixo das discussões de como se ensina, para como se aprende a linguagem escrita, esses pensamentos apresentam como uma “revolução conceitual”, demandando abandonarem-se as teorias e práticas tradicionais e desmetodizar-se o processo de alfabetização. (p.14)

Os estudos de Ferreiro (2000,p.15) demonstram que o problema da alfabetização, está relacionado com a questão da concepção que se tem da língua escrita por parte dos educadores, uma vez que ela tem sido concebida como sistema fechado, desvinculado da realidade da criança e sua aquisição como um processo de transcrição gráfica.

Melo (2000, p.2), ressalta que esse pensamento fundamenta na concepção de que:

A linguagem é a expressão do pensamento . Se concebemos a linguagem com tal, somos levado a acreditar que pessoas que não conseguem se expressar , não pensam. E ai eu pergunto. E aquela criança que quase não fala, quietinha. Será que não pensa? Para essa concepção, a capacidade de o homem organizar de maneira lógica seu pensamento dependerá da exteriorização desse pensamento de maneira lógica e de acordo com a língua padrão. O contexto social não é levado em consideração Os estudos tradicionais e a gramática normativa se orientam por essa concepção. O positivismo e o estruturalismo dão as bases para essa concepção e também a psicologia behaviorista de Skinner baseado nos condicionamentos por estímulo e resposta.

Portanto, essa concepção não aceita a variedade dialetal da língua e não leva em conta o contexto social.

Uma outra concepção conservadora de linguagem, criticada por Melo (2000, p.2) é que:

A linguagem é um instrumento de comunicação – esta concepção está ligada a teoria de comunicação que vê a língua como código que é regido por regra, capaz de transmitir uma mensagem de um emissor a um receptor. Esse código para ser entendido, precisa ser previamente pré-estabelecido. Não há troca de sentidos, somente troca de informações. Essa concepção compreende a língua apenas com o seu funcionamento, interno – separa a língua do homem e do seu contexto social.

Essas concepções criticadas por Melo (2000), Geraldi (1987), Smolka (2003), Possenti (2000) e outros, afastam o sujeito falante do seu processo de produção da língua. E separam ainda a linguagem do homem do contexto social em que ela é produzida.

Melo, (op.cit.,p.4), a partir de uma concepção bakhtiniana de linguagem, ressalta que linguagem é um processo de interação entre as pessoas que falam uma língua e que, nesse processo, produzem “efeitos de sentidos” que provocam cada vez mais sentidos e significados. Por isso, a linguagem é polissêmica – produz vários sentidos – e polifônica – o sentidos provêm de várias vozes. A leitura e a escrita, desde o fase inicial, devem seguir, assim, o percurso da polifonia e da polissemia. É aí que a escrita e a leitura se encontram com a criança que deseja ser leitora e escritora.

Assim, após a investigação de Ferreiro, não é possível mais desconsiderar que a criança constrói “hipóteses” sobre a escrita, e nem é possível fechar os olhos para as conseqüências provocadas pelas diferenças de oportunidades. A criança que não tem em casa a prática de uso da escrita fica em desvantagem diante daquelas que vivem em um ambiente letrado, portanto, cabe ao educador criar em sala de aula um ambiente alfabetizador, para que a criança posso vivenciar situação real de uso da escrita e possa entender sua função social e o seu funcionamento.

As pesquisas de Smolka, Melo, Possenti e Mortartti demonstram que a dificuldade não está na criança, mas nas condições adversas do meio em que vive e na formação dos professores que não sabem lidar com as novas propostas. Nesse sentido, essas pesquisas indicam também que a criança que possui no seu meio social um contato maior com a escrita, participa e faz uso dela, ao chegar à escola tem mais facilidade de aprender. Elias (2003, p.168) confirma que:

Deve-se considerar que muitas crianças chegam à escola sabendo para que serve a escrita, pois tiveram oportunidades de interagir com ela, e terminam sua alfabetização com sucesso. Outras, porém, justamente as que mais necessitam da escrita e de informações sobre suas funções na sociedade, são vítimas de métodos, manuais ou programas ainda apegados à concepção de que só se aprende algo por meio de repetição, memorização, cópia de modelos de escrita ou mecanização.

De modo geral, as crianças chegam à escola com conhecimentos e hipóteses sobre a escrita e não partem do zero, como muitos pensam.

Para Ferreiro, a transformação necessária no processo de alfabetização passa pela mudança de concepção de ensino e de aprendizagem da linguagem escrita por parte dos educadores como afirma:

(…) as mudanças necessárias para enfrentar sobre bases novas a alfabetização inicial não se resolvem com um novo método de ensino, nem com novas teses de prontidão nem com novos materiais didáticos. É preciso mudar os pontos por onde nós fazemos passar o eixo central das nossas discussões. Temos uma imagem empobrecida da língua escrita: é preciso reintroduzir, quando consideramos a alfabetização, a escrita como sistema de representação da linguagem. Temos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a uma par de olhos, um par de ouvidos, uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador que emite sons. Atrás disso há um sujeito cognocente, alguém que pensa, que constrói interpretações, que age sobre o real para fazê-lo seu. (Catálogo da base de dados. Vol.1, SP, FDE).

As pesquisas de Ferreiro sobre a psicogênese da língua escrita trouxeram grandes avanços e inovações para o sistema educacional, principalmente, no processo de aprendizagem da leitura e escrita ao conceber a criança como sujeito que pensa e constrói conhecimento, no entanto, o trabalho inovador de Ferreiro pecou em alguns pontos de acordo com alguns autores, como Smolka (2003), Geraldi (2000), Abaurre (2000), Silva, entre outros. Silva (1995, p. 93),ao longo de sua pesquisa, enfatiza que:

(…) Ferreiro procurou registrar o que as crianças são capazes de realizar sem ajuda do outro. A autora estava preocupada em estabelecer os níveis universais da evolução da escrita – tendo realizado para tal uma análises exaustiva de cada etapa – sem se preocupar com o papel do adulto , pois sua interpretação estava centrada no sujeito , que através de fatores internos (maturação) em interação com o objeto escrita (nome , cartaz, livros dos pais etc.) evolui nas diferentes etapas num processo de equilibração sucessiva. O social aparece aí enquanto acesso (ou não ) aos objeto culturais veiculados a língua escrita . Ferreiro também não tinha como objetivo verificar se outras condições das entrevistas , como o conteúdo das propostas dadas às crianças , poderia influenciar, induzir a produção da criança . Assim , a sua análise sobre os dados levantados privilegiou os pontos homogêneos e semelhantes entre si, deixando em segundo plano, a diversidade do processo das crianças.

Ferreiro, na análise de Silva, privilegiou os pontos em comum, os aspectos gerais e não as diferenças na construção da escrita das crianças.

Nessa mesma linha de pensamento, Smolka (2003, p.53) afirma que Ferreiro dá ênfase ao aspecto individual, subjetivo, em detrimento do aspecto social, ao processo cognitivo e à inteligência geral, na apropriação do conhecimento, independentemente da interação social presente num processo educativo. De acordo com essa autora, a pesquisa de Ferreiro apesar de relevante, não dá conta do processo da leitura e escrita como um todo, já que esse processo não pode ser visto somente da ótica individual, mas é necessário levar em consideração vários fatores sócio-históricos e culturais que interferem nesse processo.

Numa outra ótica histórico-social, Lúria, psicólogo soviético, colaborador de Vygotsky, desenvolveu, em 1930, estudos experimental sobre a aquisição e desenvolvimento da escrita com criança que não sabia ler e escrever, levando em consideração os aspectos sócio-históricos. Através da produção infantil, o autor delineou a pré-história da escrita, isto é o percurso do desenvolvimento da escrita das crianças que estavam na pré-escola e que, em dado momento, abandonavam a escrita pictográfica.

Conforme Oliveira (2003, p.68), Lúria chama atenção para o fato de que esse percurso, que vai desde os rabiscos mecânicos até a representação simbólica da escrita, não é um processo pessoal e independente do contexto, pelo contrário, é um processo de interação da criança com a escrita, através de uma situação de aprendizagem sistemática pela qual ela passa. Dependendo da experiência de vida, das crianças, o percurso sofrerá variação.

Silva (1993, p. 98) também argumenta que, nos seus estudos, ao contrário de Ferreiro, Luria,

por sua vez, não se propôs a criar categorias rígidas e universais de análise e, embora fale em estágios da escrita, centrou a sua interpretação na influência sobre a produção das condições apresentadas em cada entrevista: de um lado, o conteúdo da tarefa, o papel do pesquisador e produção da própria criança; de outro, o nível de desenvolvimento cultural da criança, o seu ambiente etc. Ao aprofundar a análise dessas condições, acaba por enfatizar um complexo de condições dinâmicas que se relacionam entre si, com sobreposição da diversidade sobre a homogeneidade.

Portanto, uma série de fatores, experiência de vida, interação social, aspecto cultural, conteúdo, situação de produção influenciam o modo de construção da escrita da criança.

Também Smolka (2003, p.19), ao contrário de Ferreiro, defende a presença do “outro” no espaço de aprendizagem da escrita como interlocutor e mediador que influência e muda o rumo da produção escrita da criança. Essa autora ainda continua enfatizando que há toda uma situação de privilégios, dominação, convivência, interação social, movimento de interlocução que precisa ser considerada no processo de ler e escrever.

Nos estudos de Ferreiro, Smolka (2003, p.20) ainda destaca que a aprendizagem da escrita é tratada como uma construção pessoal e não social, que produz conflito cognitivo em que o erro é considerado fator importante e positivo na construção da escrita. Essa concepção de erro encontra eco nos estudo de Piaget. Com certeza, as construções originais e tentativas de acertos da criança devem ser consideradas como pontos relevantes no processo de aquisição da escrita, mas durante esse processo, deve ser permitido à criança compartilhar e discutir suas produções com o outro.

A diferença de concepção de aprendizagem da escrita de Ferreiro, que se fundamenta em Piaget, e de Lúria que busca seus pressupostos em Vygotsky pode ser evidenciada quando Piaget declara que “quando se ensina alguma coisa à criança, a impedimos de realizar uma descoberta por si mesmo”, enquanto Vygotsky destaca que “a criança fará amanhã o que hoje faz com cooperação.” Para Smolka (2003), os trabalhos de Luria se basearam nessa permissa, portanto sues alunos (pré-escolar) sempre produziam escrita em uma ambiente de intensa interação verbal e social. O “barulho” social incentiva a criança a escrever mais, segundo Luria.

Outro aspecto a ser analisado na teoria de Ferreiro que se baseia em Piaget e Chomsky, diz respeito ao entendimento dessa autora de que a criança nasce com estrutura e capacidade inatas para elaborar esse conhecimento a partir de sua ação física e mental sobre o meio. Assim, a criança nasce com um potencial genético que vai se desenvolver por meio de ações concretas e mentais. A criança vai agir sobre e com o objeto que ela vivência, passando por um processo de abstração da informação. Luria (2003) numa visão sócio-histórica, demonstra em sua pesquisas que, quando a criança chega à escola, já traz conhecimento sobre a escrita adquirida a partir de sua experiência de vida, (o que hoje chamamos “letramento”) e, para ele, o professor deve, partir de onde essa criança está, que é o nível de desenvolvimento proximal com o objetivo de chegar ao nível potencial. O “outro” como alguém mais experiente, e relevante na construção da escrita da criança, deve fazer parte da vida da criança.

Nessa mesma linha de pensamento, Smolka (op. cit., p.63), enfatiza que o espaço interativo em sala de aula representa um aspecto instaurador de conhecimento da leitura e escrita. E a atividade mental, um processo importante na elaboração do conhecimento, de forma discursiva. Para essa autora, o que se pode constatar é que a escola, de modo em geral, ainda está muito aquém desse processo discursivo da alfabetização, porque não tem trabalhado a elaboração do conhecimento com a criança, ainda está muito presa à concepção transmissiva de conteúdo e atividade que não permite a criança pensar e expor suas idéias, contribuindo assim, para o baixo desempenho e emudecimento da fala da criança.

E ainda mais: há a utilização indiscriminada do livro didático como única fonte de conhecimento, com atividades sem significado, que não permitem as várias interpretações, portanto esses livros são alheios ao funcionamento da escrita de uma sociedade letrada.

É um equívoco pretender ensinar de uma forma padronizada e homogênea, pois as crianças são diferentes uma das outras, no seu jeito de pensar, no saber e no modo de processar e elaborar o conhecimento. A escola precisa se atualizar, sair desse seu ensino de massa, imposto pela industria cultural dos livros didáticos. A criança chega à escola com linguagem e conhecimento do mundo globalizado, porém existe uma barreira entre esse saber e o saber escolar.

É preciso mudar o processo de ensino da língua escrita, pois hoje se tem um novo conceito de leitura e escrita, e de letramento que vai além do conceito de alfabetização. Conforme Soares (2001,p. 3), letramento, significa o estado e condição de quem não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita na sociedade em que vive. Uma pessoa letrada, portanto, não é apenas aquele que sabe ler e escrever, significa também fazer uso de práticas sociais de leitura e escrita, no dia a dia de sua vida. Hoje não basta alfabetizar somente, é preciso alfabetizar letrando. E a preocupação deve estar voltada para a questão da qualidade desse processo. Não basta ensinar a ler e a escrever, é preciso desenvolver a competência da leitura, formando leitores e escritores críticos de todos os tipos de textos.

Conforme Soares (1999, p. 3), o conceito de letramento não concebe a língua como processo de transmissão ou instrumento de comunicação, mas a considera como um processo de interação em que o interlocutor vai construindo sentido e significado ao longo de suas trocas lingüísticas, constituindo significados, segundo a relação que mantém com a língua, com o tema sobre o qual fala ou escreve.

Assim como Smolka (2003), Soares (1999) entende que, o ensino da língua deve ser constituído em prática discursiva, em torno de textos orais, escrito, em diferentes tipos de gêneros, e que também é dependente das condições de produção de quem fala ou escreve, para quem fala ou escreve , quando e onde fala e escreve.

Smolka (2003, p.65) assim como Soares, afirmam que a língua é um produto cultural construído na interlocução, num processo dialógico. Para essas autoras, produzir linguagem tanto na modalidade oral como escrita é produzir discurso. Por isso, há necessidade de se trabalhar a leitura e escrita como prática discursiva e dialógica no processo de aprendizagem, desde a fase inicial.

Smolka (2003, p. 1) ainda enfatiza que:

O diálogo que se estabelece em trono de um desenho, de uma história lida pela professora ou de um evento qualquer no cotidiano das crianças é fundamental no processo de elaboração, de produção compartilhada de conhecimento. A criança aprende a ouvir, a entender o outro através da leitura; aprende a falar e a dizer o que quer pela escrita.

A aprendizagem da língua escrita implica ler e escrever texto (discurso), que representa idéias com unidade de sentido, escrever implica processo de elaboração pessoal do discurso interior, isto é, suas produções espontânea, entendendo como tal as que não são resultado de cópia.

Assim, a construção da língua escrita é um processo de elaboração e reelaboração pela própria criança, medida pelo professor e a interação com os colegas. Nesse sentido, o diálogo que o professor estabelece na sala como a criança, mediado pelo conhecimento, o tipo de atividade proposto, o material de leitura, influenciam no pensar e no desenvolvimento da escrita da criança. A criança deve ler bastante e ser motivada para comentar, dar opinião sobre o que leu e tudo que ela faz e vê, e o professor deve ficar atento a tudo isso e intervir, fazer pergunta questionar de forma que favoreça o seu desenvolvimento.

Também a criança deve ser exposta, ter contanto com diversos tipos de materiais escritos e ser encorajada a manipular esses materiais na interação com os professores e os colegas e faz a sua elaboração pessoal no processo da construção do conhecimento.

Acredito, que esse percurso levará, apesar dos percalços, à formação de muitas crianças leitores e escritoras. Para isso, é necessário que o professor tenha uma formação sólida que o ajude a transformar essa situação em que a leitura não se torne não-leitura.


CAPÍTULO III

FORMAÇÃO DE PROFESSORES E O ENSINO DA LEITURA E DA ESCRITA

Pesquisas demonstram que muitos professores não têm considerado a alfabetização como um espaço produção do conhecimento. Acreditam ainda que a criança precisa apenas codificar a escrita e o significado deve ser deixado para depois. A aquisição da língua escrita implica desde a sua gênese a construção de sentido num processo de interlocução com o outro.

Quando a criança escreve palavras soltas ou ditadas pelo adulto, a característica da produção é uma, evidencia-se mais facilmente a ocorrer correspondência entre dimensão sonora e extensão gráfica. Mas quando a criança escreve o que pensa, o que quer dizer, contar, narrar, ela escreve porção de fragmento do discurso interior. (2003,p.75).

E é esse discurso interior que pode dar as pistas para que o professor possa percorrer o percurso da fala da escrita e da leitura da criança.

Por falta de conhecimento, o professor atribui a dificuldade da criança em aprender, à sua falta de capacidade, rotula-a como deficiente. No entanto, as dificuldades que as crianças apresentam, muitas vezes, estão relacionadas a procedimentos inadequados de ensino. Se não sabe, logo significa que não foi lhe ensinado e o professor precisa ensinar.

Apesar das discussões sobre a necessidade de mudança, o professor ainda está muito apegado à prática tradicional. Sabemos que a criança aprende sobre os usos e funções da escrita em seu mundo social, enquanto que na escola, o professor desconhece essa aprendizagem e impõe, pelos livros didáticos, conteúdos que nada dizem para a criança.

Sabemos que, uma criança que vive em uma sociedade letrada, tem contato com a escrita nas diferentes situações sociais, sabe para que serve a escrita, sabe que é significativa . Ao chegar na escola tem toda uma concepção sobre esse objeto, mas muitas vezes, essa concepção é deturpada pela maneira como a escrita é apresentada e trabalhada pelo professor, que não aceita a construção do aluno, considerando um erro as suas tentativas e hipóteses.

O erro, pode ser um gancho, uma maneira de o professor rever sua prática, o conteúdo, sua forma de ser, e de ensinar e, a partir de então, procurar melhorar, rever seu processo de ensino. Deve-se discutir com as crianças, não de forma negativa, mas no sentido de fazer uma análise da língua escrita, mostrando que a escrita não representa a transcrição da fala, a correspondência entre som e letras, acontece em poucos casos, dependendo da posição a letra muda de som.

Ainda Alves (1993, p. 66) comenta que:

Quando o aluno erra, o professor dá a resposta tida como certa, faz com que ele reproduza. O erro não é entendido como um momento do processo de aprendizagem, como uma hipótese que o aluno lança mão rumo a resolução do problema, que lhe, foi colocado. Ao contrário ele é sempre afastado , estigmatizado como algo ruim, em contraposição ao bom, ao correto que seria esperado.

O professor bem formado compreende que o erro quando discutido deve ter como propósito responder às necessidades imediatas das crianças, ajudá-las, a ampliar seus conhecimentos sobre o sistema convencional da escrita. Sendo que no processo inicial da aprendizagem da leitura e da escrita, os erros não devem ser avaliados em termos de certo ou errado, pois as crianças estão em processo de construção. Essas novas teorias devem fazer parte da vida do professor, porém existem dificuldades em entendê-las, provocando uma série de problemas na vida da criança e ao professor.

O fato é que essas teorias são colocadas para o professor de cima para baixo e posta sem discussão, como solução para os problemas do processo ensino e aprendizagem. Essa postura faz com o educador, aquilo que o ensino tradicional faz com as crianças: desconsidera o seu saber e experiência anteriores.

Concordo com Aquino (1998, p.47-49), quando diz que o professor tem muito conhecimento e idéias baseadas na sua experiência de vida como profissional e como aluno, e que quando revelado, pode contribuir de forma significativa para o sistema educacional. Portanto, é necessário ouvi-lo. É preciso recuperar esse conhecimento que o professor acumulou ao longo de sua prática, coisa que nenhuma teoria faz.

Os cursos de formação privilegiam a transmissão de informação desvinculada entre si, e pouco significativa. Para Weisz (2003. p.16):

O modelo de formação profissional que foi se tornando convencional é basicamente teórico, tem como foco exclusivo a docência , desconsidera os “pontos de partida” dos professores privilegia o texto escrito com meio de acesso á informação , não valoriza a prática como importante fonte de conteúdo da formação , prioriza modalidade convencional de comunicação (como aula , seminário , palestra, e curso) , não se organiza a partir de uma avaliação diagnostica e não dispõe de instrumentos eficazes de avaliação da competências profissionais . Portanto , não favorecem o desenvolvimento de competência profissional.

Nessa mesma linha de pensamento, Aquino (1998, p.47-49), ressalta que a construção do novo saber deve ter como ponto de partida o conhecimento que o professor já tem, isso representa uma maneira de ser coerente com as novas teorias que propõem que o professor valorize o conhecimento do aluno. Assim, o mesmo deve ser feito com o professor. Quem trabalha com o professor não pode esperar mudança na sua atuação junto ao aluno se não mudar também sua forma de ação junto ao professor. Vale, portanto, repensar os cursos de formação de professores.

De acordo com Libâneo (1998, p. 82), desde o ingresso do professor no curso de formação, deve haver articulação entre teoria e prática e que deve haver formação continuada na própria escola, para que o professor possa discutir e refletir sobre sua experiência.

Para garanti ao aluno o seu direito de aprender, é indispensável que o professor também tenha assegurado os seu direito de aprender a ensinar. A competência do professor é tão importante tanto para ele como para a escola. A competência profissional também significa a capacidade de saber identificar problemas, usar e mobilizar todos os recursos existentes, inclusive os conhecimentos teóricos e práticos para exercer as diferentes demandas da atividade escolar, portanto é ter e ser capaz de responder os desafios que a realidade apresenta, e isso, não se aprende apenas estudando (WEISZ, 2003).

Nesse sentido, os cursos de formação não têm proporcionado ao professor, competência profissional para lidar com o cotidiano desafiador da escola e do próprio mundo.

Diante das dificuldades constatadas e dos novos desafios da sociedade contemporânea, hoje, exige-se um novo perfil do educador, em resposta a essa realidade. A nova LDB de 1996 propõe a reformulação do curso de formação docente, e uma das exigências é, que a partir de então, as instituições formadoras, organizem seus currículos de forma que os educandos possam realizar desde o início de sua formação, a articulação entre teoria e prática. Porém, existe crítica a essas novas propostas da LDB, uma delas é a abertura de espaço para a criação de novos cursos de cunho aligeirado e técnico, que preparam profissional para desempenhar determinada habilidade e não o profissional com formação global capaz de pensar e planejar sua prática.

Assim, essas propostas pretendem formar o aluno com algumas habilidades cognitivas específicas para atender o mercado e não visa formar sujeito crítico capaz de responder aos desafios e às demandas da leitura e escrita do mundo atual marcado pela cultura do papel e meios eletrônicos.

A ANDES (2001, p. 7) ao discutir a formação do professor proposto pela nova LDB de 1996 , faz as seguintes considerações:

O eixo central da proposta de diretrizes está na formação de profissional “técnico”, através de uma concepção utilitária e pragmática sustentada no retorno ao paradigma tecnicista dos anos 70. Essa concepção se apresenta assim com uma “nova” roupagem, cujo foco está centrado nas competências. Para tanto, é, enfatizado o fazer prático, ou seja, os professores devem ser formados para aprender somente aquilo que terá utilidade imediata e tornarem-se capazes de “mobilizar o conhecimentos para transformá-los em ação”. Por outro lado, no seu exercício profissional, deverão promover seus alunos habilidades cognitivas que incluam, entre outras, a capacidade de “raciocinar logicamente, de comparar, compreender, criticar, estabelecer relação, inferir e generalizar.” Dessa forma o professor deve ser formado para ser prático, como denuncia a ANFOPE, aquele que faz mas não conhece os fundamentos de seu fazer.

Essa nova proposta caminhará para o dualismo educacional, educação sofisticada para alguns e educação rudimentar para outros. Os educadores, portanto, devem ficar atentos, acompanhar de perto as políticas e programas existentes para formação de professores.

A partir da definição de políticas públicas sérias e competentes de formação de professores, comprometidas com a maioria da população, é que podemos acreditar na formação de professores que não sejam “interditados”, como diz Britto (2002), mas professores que estejam envolvidos com a luta pela formação de uma sociedade livre, justa, sem discriminação, em que crianças, jovens e adultos sejam leitores e escritores críticos dos seus próprios textos e dos textos do mundo que o rodeiam.


CONCLUSÃO

De acordo com o que foi exposto, nota-se que o professor precisa de uma boa formação teórica sólida para embasar sua prática, entender a natureza da língua escrita, como se dá a sua aquisição pela criança, para poder, interferir, mediar e respeitar o processo de construção na fase inicial da aprendizagem.

Por falta de conhecimento o professor joga a culpa na criança pelo seu baixo desempenho na aprendizagem da leitura e escrita, atribuindo a sua suposta deficiência lingüística e cultural, porém a dificuldade não está na criança mas na escola que não sabe ensinar a língua padrão.

Uma outra questão que precisa ser levado em conta, é que, as crianças que não têm prática de leitura e escrita no seu meio cultural fica em desvantagem diante daqueles que vivem em um ambiente letrado, e o professor precisa, portanto, propiciar em sala de aula um ambiente onde essas crianças possam vivenciar situação real de uso da escrita, levando a consumir , produzir e entender sua função e funcionamento.

De acordo com os estudos da área da lingüística percebe-se que não se constrói leitores e escritores através de ensino mecânico . A língua é um fenômeno social, dinâmico, vivo e mutável, não funciona sempre do mesmo jeito, ela muda de acordo com o contexto, a situação de produção e a intenção do interlocutor. Portanto, a aprendizagem não significa, repetir modelo pré-determinado, mas a capacidade de fazer uso da linguagem em diferentes situações de comunicação, usar a língua para seus variados fins.

A partir dos estudos de Ferreiro e Luria sobre a construção da linguagem escrita das crianças, os educadores têm mais condições de oferecer um ensino eficaz e superar as concepções equivocadas. Esses autores tratam do mesmo tema, mas com perspectivas e concepções diferentes. Ferreiro fundamenta-se em Piaget que vê o sujeito biológico, centrado no seu eu no processo de construção do conhecimento. Luria, discípulo de Vygotsky, vê o sujeito como um ser histórico-social. Para Ferreiro e Piaget, o conhecimento é o resultado de uma construção mental construída a partir da interação do sujeito com o objeto de conhecimento. Já Luria e Vygotsky entendem que o conhecimento é uma construção mental construído na interação da criança com o outro e o objeto, mediado pela linguagem, a linguagem e o outro tem um grande papel, são fundamentais na construção da leitura e escrita da criança.

Nesse sentido, Ferreiro com sua teoria psicogenética da língua escrita, estuda a criança como um ser universal que, levanta hipótese sobre a escrita, ou seja, todas as crianças passam pelo desenvolvimento da escrita numa ordem determinada.

Para Luria, a criança é um ser social único que constrói de forma diferente o saber e a aprendizagem está relacionada com o meio social, cultural em que ela vive. Apesar das diferenças, Ferreiro e Luria têm muito em comum, ambos vêem a criança com construtora de conhecimento, porém cada um olha por um ângulo, um ponto de vista diferente. Luria na perspectiva sócio-histórica. Ferreiro, a partir do eu biológico.

A diferença de concepção de aprendizagem entre ambos têm implicações no ensino e aprendizagem da língua escrita. A perspectiva interacionista, enfatiza e defende a presença do outro no processo da aprendizagem, ressalta a importância de se trabalhar a leitura e escrita com prática discursiva e dialógica. Assim, “a criança aprende a ler e escrever, com, e para o outro, e se apropria dos conceitos, elabora o discurso interior, aprende a falar e dizer o que pensa pela escrita”. (SMOLKA, 2003).

Como se pode perceber, falar em leitura e escrita, na fase inicial, significa falar em formação competente do professor para atuar nessa fase. Essa interlocução professor-aluno-escola-formação dão a medida certa, nesse momento, para a formação de leitor e escritor desde as séries iniciais do ensino fundamental, até os outros cursos subseqüentes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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WEISZ, Telma. Alfabetização e o fracasso escolar.

WEISZ, Telma. Uma cultura escolar centrada no direito de aprender.

Autor: Soraya Mendonça Marques

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Envelhecimento: Processo biopsicossocial
Trabajo monográfico para el 
Curso Virtual Educación para el Envejecimiento

Luzia Travasssos Duarte
ltravassos@bol.com.br

Instantes...

Se eu tivesse que começar a vida novamente, gostaria de errar mais vezes.

De relaxar, de ser mais flexível.

Teria mais simplicidade

Poucas coisas faria com seriedade.Correria mais riscos, viajaria mais.

Subiria as montanhas e nadaria em rios.Tomaria mais sorvetes e comeria menos feijão.Talvez agora estivesse com mais problemas.Porém, teria menos ilusões.

Como vê, sou uma dessas pessoas que vivem com sensatez e juízo, hora após hora, dia após dia.Oh! Já tive meus instantes e se os tivesse de novo eu os multiplicaria. De fato, eu tentaria não ter nada além deles. Só os momentos, um após outro, em vez de viver tantos anos sempre à frente dos dias.

Fui uma dessas pessoas que nunca foi a nenhum lugar sem um termômetro, uma garrafa de água quente, uma capa de chuva e um pára-quedas. Se eu pudesse fazer tudo de novo, viajaria com mais descontração.

Se eu tivesse que começar a vida de novo, ficaria descalça bem cedo na primavera e permaneceria assim até o fim do outono. Iria mais vezes aos bailes e freqüentaria mais os parques de diversão.

Escolheria o que fosse mais gratificante...

Nadine Stair, 85 anos de idade.

Louisville, Kentucky

 

Resumo:

O interesse em compreender e evitar a velhice remonta aos primórdios da nossa história. A população mundial de idosos aumenta surpreendentemente, fenômeno explicado pelas descobertas científicas de um modo geral, o que melhorou a qualidade e expectativa de vida da população. É um processo universal e está inter-relacionado aos aspectos biológicos, psicológicos e sociais. É individual e difere entre as pessoas no que diz respeito à forma de envelhecer, a velocidade e a vivência, pois as alterações físicas e fisiológicas geram mudanças a nível intelectual provocando uma resposta psicológica que é influenciada também pelo meio social em que vive o envelhescente. A vida é um constante processo de modificações e a cada fase de seu desenvolvimento ocorrem transformações múltiplas acompanhadas de seus próprios desafios.

1 - Introdução:

O homem durante muito tempo, no início da nossa história, não se preocupava com o envelhecimento. O tempo médio de vida do ser humano era muito pequeno, devido às condições precárias de vida, a fragilidade diante das doenças, o desconhecimento da etiologia das mesmas, como também eram presas fáceis dos predadores maiores. Mais tarde inicia-se uma luta contra as doenças e a morte e o seu grande desafio, vencer o envelhecimento.O livro da gênese fala que após o Dilúvio as pessoas passaram a viver mais. Vários poetas gregos escreveram sobre a longevidade. Hesíodo (poeta grego que viveu no oitavo século a.C.) descreveu uma raça dourada, constituída por um povo que vivia centenas de anos sem envelhecer e que morriam dormindo quando chegasse o seu dia. Os gregos acreditavam existir um povo que habitava em terras longínquas ao norte e que vivia milhares de anos..

Aristóteles (filósofo grego) e Galeno( médico grego, 129-199 AD ) acreditavam que cada pessoa nascia com certa quantidade de calor interno que iria se dissipando com o passar dos anos, considerando então a terceira idade o período final desta dissipação de calor. Aristóteles (384-332 AC, o mais influente filósofo do pensamento do mundo ocidental) sugeria o desenvolvimento de métodos que evitassem a perda de calor, o que prolongaria a vida, dando um certo cunho científico ao problema. Em diversas culturas conhecemos relatos de rituais, banhos de ervas, banhos de leite, como nos conta a história da rainha Cleópatra, para manter a pele branca, suave e jovem. Na idade média surgiram os alquimistas, considerados os químicos antigos que se utilizavam da alquimia ( arte medieval que procurava descobrir o elixir da longa vida e a transformar qualquer metal em ouro) através de poções mágicas, filtros etc... buscando a imortalidade, a perfeição do ser humano.

Há alguns séculos atrás, o navegador espanhol Ponce de León enlouqueceu em sua exaustiva busca pela "Fonte da Juventude". É uma utopia, pois se trata da busca da vida eterna em um corpo jovem. A maioria dos povos sempre apelou para a fantasia quando procurava a fonte da juventude. Alguns pensaram encontrá-la em longínquas ilhas, outros em rios caudalosos, alguns em extratos especiais extraídos de testículos de cães e outros ainda em ser a longevidade dependente de uma vida reta e disciplinada.

O primeiro trabalho científico sobre velhice, foi escrito por um médico francês no século XIX ( Jean-Martin Charcot, em 1867) intitulado "Estudo Clínico sobre a Senilidade e Doenças Crônicas". Charcot não se preocupava em estudar a imortalidade, mas o processo de envelhecimento, suas causas e conseqüências sobre o organismo.

llya llyich Metchnikov, cientista russo, (1845-1916) prêmio Nobel de Medicina de 1908, acreditava que o processo de envelhecimento era resultado de venenos produzidos no intestino grosso pela deterioração dos alimentos.Preconizava a ingestão regular de leite ou iogurte e o uso freqüente de laxantes, hábitos que deveriam esterilizar o intestino.

A história nos mostra que o desejo em prolongar a vida, retardar ou tentar controlar o envelhecimento é intrínseco ao ser humano, e faz parte de sua procura pela felicidade completa. A busca continua e quanto mais as pesquisas científicas avançam, os processos se modernizam abrindo espaços para que tenhamos uma vida mais saudável e plena, mais o homem deseja a juventude, a beleza, o corpo sarado, buscando concretizar o mito da imortalidade ou da beleza e juventude apesar dos anos, como as ninfas que não eram imortais, mas, permaneciam jovens e belas até a morte. O homem parece não suportar o limite, a velhice e a morte.

2 – Dados demográficos

O segmento da população que atinge a maior idade está crescendo e ocupando um grande espaço na nossa sociedade. Não faz muito tempo, e dizia-se que o Brasil era um país de jovens, parte da população tinha menos de trinta anos de idade. No entanto nos últimos anos vem ocorrendo uma mudança a nível mundial. No Brasil em 1990 havia cerca de 10 milhões de pessoas acima de 65 anos de idade, e há uma previsão para o ano 2025 de 35 milhões de idosos, quando o nosso país ocupará o 6º lugar entre os demais. Hoje, o último censo nos mostra essa nova realidade, em 1990 a expectativa de vida do brasileiro era em média de 60 anos, já em 2000 houve um aumento para 68 anos e 7 meses. Para quem tem hoje 40 anos a expectativa atual é de 73anos e 10 meses, para quem tem 60 anos é 77 anos e 9 meses. Segundo o IBGE as mulheres vivem mais, e a diferença entre homens e mulheres em 1991 era de sete anos e 2 meses, em 2000 foi de sete anos e 9 meses. A menor expectativa de vida do país é a do estado de Alagoas com uma média de 63 anos e 2 meses e a média mais alta situa-se no estado do Rio Grande do Sul com 71 anos e 7 meses. Na Espanha as mulheres que nascerem agora terão a maior expectativa de vida da Europa (82,7 anos), para os homens não é tão estimulante, ocupam o sétimo lugar com uma esperança de 75,5 anos. Os líderes vitais são os Islandeses, com 78 anos. Estes são dados atuais apurados pelo programa de Desenvolvimento demográfico do Conselho da Europa desenvolvido em 43 paises membros e três não membros. Aqui, no Brasil, o setor de Previdência Social deverá ser violentamente atingido, e o setor de saúde, por sua vez está totalmente despreparado para esta realidade, pois ainda está muito voltado para as crianças e os jovens, quando a realidade nos indica novos dados em relação à população da terceira idade, onde já se pensa em criar uma nova faixa etária que seria a 4ª idade, sem falarmos na formação médica que ignora totalmente o trabalho com os idosos. Medidas imediatas e dentro da nossa realidade, deverão permear as mudanças em todos os níveis da nossa sociedade e principalmente do nosso sistema de saúde e previdenciário. Este é um desafio que enfrentaremos para lidar com essa mudança de forma positiva, para que o nosso idoso seja mais saudável.

3 - Processo Biopsicossocial

São muitas as perspectivas através das quais podemos observar, estudar e analisar o processo de envelhecimento. Entre elas as perspectivas: histórica, sociológica, cultural, psicológica, religiosa, biológica, demográfica, nutricional, habitacional, legal etc...

Abordarei o tema enfocando de maneira simples os aspectos biopsicossociais do envelhecimento.Tema que merece posteriormente, um minucioso estudo.

3.1 - O que acontece biologicamente à pessoa que envelhece?

O envelhecimento é um processo que apresenta algumas características:

É universal, por ser natural, não depende da vontade do indivíduo, todo ser nasce, desenvolve-se, cresce, envelhece e morre. A vida é um constante processo de modificações e a cada fase de seu desenvolvimento ocorrem transformações múltiplas acompanhadas de seus próprios desafios.

É irreversível, apesar de todo o avanço da medicina em relação às descobertas e tratamentos das doenças, as novidades farmacológicas, o desenvolvimento de técnicas estéticas etc... nada impede o inexorável fenômeno, nem o faz reverter.

É Heterogêneo e individual, em cada espécie há uma velocidade própria para envelhecer, essa rapidez de declínio funcional varia desmedidamente de pessoa para pessoa e numa mesma pessoa de órgão para órgão.

É deletério, danoso, pois leva a uma perda progressiva das funções.

É intrínseco.

Modificações Gerais:

  • Diminuição da massa óssea;
  • Atrofia da musculatura esquelética;
  • Redução da água intracelular;
  • Aumento e redistribuição da gordura;
  • Diminuição da concentração de albumina sérica;
  • Redução da taxa de metabolismo basal;
  • Alteração do sistema de regulação de temperatura
  • Diminuição da imunidade celular e aumento da predisposição a formar auto-anticorpos e assim desenvolver doenças auto-imunes.

Modificações Sistêmicas:

Pele: a pele torna-se mais seca, rugosa e flácida, os melanócitos diminuem em número e sofrem alterações funcionais, apele torna-se mais delgada;

Ossos, articulações e músculos: atrofia e substituição das fibras musculares por fibras colágenas, diminuição da espessura dos discos intercostais, anquilose das articulações, desgaste dos ossos da maxilar e mandibular, perda da elasticidade do crânio, perda da massa óssea;

Sistema nervoso: diminuição do peso e do volume do cerébro, diminuição dos neurotransmissores, diminuição dos reflexos tendinosos;

Órgãos sensitivos: opacificação do cristalino, presbiopia, diminuição dos receptores olfatórios e atrofia das papilas gustativas etc..

Sistema cardiovascular: aumento da resistência vascular e da pressão sistólica, diminuição do número de células do nó sinusal e átrio-ventricular,degeneração e calcificação das válvulas etc...

Sistema respiratório: enrijecimento e calcificação das cartilagens traqueais e brônquias, aumento do volume residual pulmonar, maior risco de infecção pela ineficácia dos mecanismos de limpeza brônquica;

Sistema digestivo: comprometimento da mastigação devido à falta dos dentes e as alterações mandibulares, atrofia da túnica muscular do tubo digestivo, diminuição das células das glândulas digestivas, diminuição do número de hepatócitos etc...;

Sistema urinário; diminuição do peso e do tamanho dos rins, diminuição no número de néfrons, diminuição da musculatura vesical e da uretra, dificuldade dos rins em excretar ácidos;

Sistema endócrino: atrofia das glândulas hipófise, tireóide, paratireóides e supra-renais, atrofia acentuada do timo, diminui a secreção de testosterona, é interrompida a secreção de estrógeno, resistência à insulina e diminuição da tolerância à glicose;

Sistema urogenital feminino: atrofia ovariana, afrouxamento dos ligamentos que mantêm o útero em posição,diminuição do comprimento e largura da vagina;

Sistema urogenital masculino: diminuição dos testículos e da fertilidade, diminuição da dimensão peniana, aumento do tamanho da próstata.

Algumas teorias são propostas para explicar o processo de envelhecimento. Goldstein e colaboradores dividem em duas categorias:

Teorias estocásticas que afirmam ser o processo o resultado da soma de alterações que ocorrem de forma aleatória e se acumulam ao longo do tempo e que são:

1 - Teoria do erro catastrófico, propõe que com o passar do tempo se produziria uma acumulação de erros na síntese protéica, que finalmente determinaria prejuízos na função celular.

2 - Teoria do entrecruzamento, postula que ocorreriam uniões entre as proteínas e outras macromoléculas celulares, o que determinaria envelhecimento e o desenvolvimento de enfermidades dependentes da idade.

3 - Teoria do desgaste, afirma que cada organismo estaria composto de partes impermeáveis, e que a acumulação de falhas em suas partes vitais levaria à morte das células, tecidos, órgãos e finalmente do organismo como um todo.

4 - Teoria dos radicais livres é uma das teorias mais populares. Defende que o envelhecimento seria o resultado de uma inadequada proteção contra os danos produzidos nos tecidos pelos radicais livres.

Teorias não estocásticas sugerem que o envelhecimento seria a continuação do processo de desenvolvimento e diferenciação, que corresponderia à última etapa de uma seqüência de eventos codificados pelo genoma. São elas:

1 - Teoria do marcapasso, onde os sistemas imunológico e neuroendocríno seriam "marcadores" intrínsecos do envelhecimento. Sua involução estaria geneticamente determinada para ocorrer em momentos específicos da vida.

2 - Teoria genética, existem padrões de longevidade específicos para cada espécie animal.

No entanto até o presente, não existe nenhuma teoria que seja completa e explique tudo o que ocorre no referido processo.Há mudanças físicas e fisiológicas definidas durante o ciclo vital. Estas não ocorrem no mesmo grau para todos os indivíduos, há amplas variações individuais. Paralelamente a estas mudanças e perdas normais desta etapa, o organismo torna-se mais vulnerável a problemas de saúde e alguns estão mais relacionados à idade madura, isto é, são mais freqüentes na terceira idade. Podemos citar:

  • Osteoporose
  • Alterações hormonais
  • Doenças cardiovasculares
  • Distúrbios da memória
  • Demências ( Alzheimer, escleroses múltiplas etc).
  • Depressões
  • Incontinência urinária
  • Parkinson etc...

Os fatores de risco para as doenças são:

  • Estresse
  • Sedentarismo
  • Tabagismo
  • Excesso de peso
  • Hábitos alimentares prejudiciais

Algumas destas entidades patológicas podem ser prevenidas ou tratadas de maneira que não signifiquem incapacidade.A partir de uma educação para o envelhecimento, ou seja, partindo da consciência do que acontece ao organismo, é possível a quem envelhece ter uma melhor qualidade de vida. Nesse momento conhecer o que muda no próprio corpo é fundamental para a adaptação. Onde aprender a envelhecer caminha junto a aprender a viver. Mudanças de atitudes permitem um posicionamento mais saudável:

  • Zelar pela saúde, consultando periodicamente o médico;
  • Conhecer as mudanças, as transformações físicas e emocionais que vivencia;
  • Praticar exercícios físicos com freqüência;
  • Buscar atividades intelectuais ( leituras, cursos, artes em geral);
  • Estimular a memória( atividades lúdicas dirigidas ou programas de treinamento);
  • Hábitos alimentares saudáveis;
  • Contatos sociais e afetivos;
  • Apoio psicológico, se necessário;

3.2 – Aspectos cognitivos do envelhecimento

Apresento alguns deles:

Mudanças quanto à memória: tem sido consistentemente verificado que a habilidade de relembrar coisas por um breve período de tempo declina com a idade.

Ao mesmo tempo parece que não há um declínio, com a idade, da memória a longo prazo. O reconhecimento de velhos amigos ou acontecimentos passados não é prejudicado, não há declínio das estratégias usuais de solução de problemas ou das palavras do vocabulário, e não há dificuldade no aprendizado de coisas novas contanto que seja dado o tempo suficiente.

Uma vez que algo tenha sido aprendido e a informação tenha sido armazenada, a pessoa idosa é capaz de relembrar da mesma forma como fazia anteriormente.

Habilidades perceptuais: há algumas habilidades perceptuais que mostram uma mudança sistemática em função da idade. Em alguns aspectos, há uma certa semelhança entre o desempenho das pessoas idosas e das crianças pequenas. Por exemplo: As pessoas idosas tendem a reagir a algumas ilusões perceptivas, da mesma forma como as crianças pequenas.

Entre os 50 e os 90 anos há um acréscimo acentuado no grau de ilusão e as pessoas mais velhas exibem um desempenho comparável ao de uma criança de 6 ou 7 anos.

Vocabulário e o raciocínio: há uma grande quantidade de dados mostrando que em testes de vocabulário, informações gerais, reconhecimento de semelhanças e julgamento, os resultados médios dos adultos mais velhos é, ao menos tão bom quanto os dos adultos jovens, quando não são melhores. Assim sendo, os testes que captam a informação acumulada, mostram que, de fato, as pessoas mais velhas possuem um maior acúmulo de informações e que elas não se esqueceram de como usá-las. A habilidade de raciocinar em busca de uma boa solução não é perdida. Contanto que não seja imposto um limite de tempo para a tarefa.

Q.I.: os estudos como um todo sugerem que não há declínio de QI total com o aumento da idade, pode até ocorrer um aumento entre os 50 ou 60 anos. No entanto a partir dos 60 anos pode haver um declínio na avaliação do QI total, talvez porque os testes de QI incluam muitos itens que requerem velocidade, boa memória a curto prazo e acuidade visual.

Concluímos que pode haver um declínio com a idade, em muitas tarefas intelectuais que requerem um excelente funcionamento físico do organismo. Na medida em que o corpo se deteriora num certo sentido, há uma deterioração equivalente no desempenho de tarefas que exigem velocidade ou boa memória a curto prazo. As tarefas que requerem, principalmente a experiência e o reconhecimento acumulado, declinam muito lentamente, se é que declinam.

3. 3 - Diferenças individuais

Há grandes diferenças entre os indivíduos, no que diz respeito ao ritmo e quantidade de declínio no funcionamento físico e nas habilidades mentais.

Tais diferenças parecem advir, em parte, das experiências d urante a meia idade e a velhice, como também provêm, parcialmente, das diferenças na saúde física.

Entre os indivíduos idosos aqueles que são mais saudáveis geralmente também apresentam melhor funcionamento intelectual.

Diversos autores como Riegel sugeriram que não há um declínio no funcionamento intelectual geral até cerca de cinco anos antes da morte, quando há então uma queda final no desempenho.

 

3.4 Influências Sócio-Culturais

Vivemos em sociedade e nela desempenhamos determinado papel que influencia nossas ações e comportamento.

Dependendo da cultura em que vive o idoso ele pode ser considerado um sábio ou um inválido. Nas culturas orientais, o velho é tido como alguém que acumulou muita experiência, e é possuidor de um saber digno de respeito e admiração. Na nossa cultura, ocidental, apesar de depender da educação de cada um, o velho pode ser um trambolho, um tirano, um aposentado sofredor, ou cortejado, se dispuser de boa situação financeira.

Há todo um complicado mecanismo de preconceitos contra a velhice, motivado principalmente pelas bases utilitárias e imediatistas em que está assentada a nossa civilização. E o idoso como quem cumpre sua sina, seu destino, incorpora os estereótipos culturais, significando-os:

  • Doenças, inatividade, isolamento como aspectos "normais" da velhice;
  • Envelhecimento como sinônimo de enfermidade;
  • Ser velho é ser assexuado;
  • Insanidade das reminiscências;
  • Ser velho é ser passivo;
  • Incapacidade para aprender;
  • Menopausa é enfermidade e acaba o desejo sexual da mulher;
  • Incapacidade para o trabalho etc...

3.5 – Aspectos Psicológicos do Envelhecimento

As mudanças que ocorrem durante o desenvolvimento do processo de envelhecimento, são sentidas de forma particular por cada um. As adaptações podem acontecer de forma adequada, saudável ou patológica. Tudo depende da história anterior, da saúde física, do bem estar sócio-econômico e da vivência atual das modificações, perdas e medos.

O envelhescente começa agora a enfrentar no seu dia a dia os fantasmas do envelhecer que o atormentam e se fazem presentes no medo da solidão, do desconhecido e da morte.

Esses fantasmas estão associados às idéias erradas sobre a velhice, herança dos preconceitos sociais cristalizados ao longo do tempo. Idéias estas ultrapassadas, que povoam o imaginário social e a realidade do idoso.

Quando o idoso pergunta-se de que forma pode ser útil, ou o que pode ainda esperar da vida, ou como pode viver, ele já se sente perdendo a sua própria identidade. Passou anos desempenhado vários papéis como filho, estudante, amigo, pai, profissional, avô, além de inúmeros outros, encontra-se agora como que abandonado, desligado, como se cometera um crime, o que é confirmado quando se pergunta o que deve fazer para ser aceito, para ser amado. Essas questões compreendem um aspecto mais profundo, pois existem os problemas de saúde, psicológicos, econômicos que influenciam na sua forma de envelhecer.

Psicologicamente a velhice é descrita como uma etapa da vida capaz de provocar depressão, sensibilidade às doenças, regressão.

Nele são tolerados sinais de retraimento e de depressão que se ocorressem em alguém mais moço provocariam medidas terapêuticas – quimioterápicas e psicoterápicas e um maior apoio ambiental. Esquece-se que os idosos são aqueles que mais tentam o suicídio com a probabilidade de sucesso.

Nas formas de desadaptação costumam aparecer processos de somatização que podem em alguns casos ser extremamente violentos e até levar à morte. Neste processo, o idoso transforma seus medos em problemas físicos, como hipertensão, diabetes, colites ulcerativas, enfarte, asma brônquica, enfisemas, histerias de conversão nas suas diferentes formas de paralisias, cegueira etc... A hipocondria vai se acentuando de tal maneira que acaba por não admitir que o indivíduo tome parte da vida, reduzindo-a a um estado vegetativo. Embora não sejam freqüentes esses casos extremos, essas perdas orgânicas e afetivas podem ser sentidas como insuportáveis e levam ao suicídio. Vale aqui ressaltar a necessidade de acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou ambos.

Quase sempre o envelhescente experimenta ansiedade frente ao desconhecido que é a própria velhice, é assaltado por dúvidas medos e freqüentemente a culpa em maior ou menor intensidade por coisas que fez, ou poderia ter feito.

A consciência do tempo passado é implacável, pois coloca em cheque todo um passado e suas realizações, um presente com um tempo com o qual não sabe lidar, não planejou ter e um futuro impreciso e desconcertante, principalmente pela idéia da morte e suas representações.

Em psicologia, dizemos que os medos precisam ser desmistificados, resignificados e elaborados, só assim os enfrentaremos, pois a sua negação transforma-os em nossos inimigos. Muitas vezes o idoso lança mão de mecanismos como a negação para lidar com a angústia, tentando adaptar-se à nova situação que lhe parece insuportável, outras vezes tem consciência de suas perdas, do seu conflito, da sua dor e vai restringindo seu campo psicológico e de ação, isolando-se, embalado por sua solidão deixa de viver situações novas que poderiam ser prazerosas e construtivas. Descobrir novas aptidões, objetivos e ideais. Mas, inconscientemente assume o papel que lhe é oferecido pelo meio, afastando-se dos contatos sociais, festas, reuniões, relacionamentos afetivos e sexuais, identificando-se com o seu suposto agressor, a velhice.

A proposta da educação para o envelhecimento é modificar aquilo que está inscrito no imaginário social a respeito da velhice, colocando em ação toda energia estagnada, mal direcionada e levar o envelhescente a desenvolver o seu potencial de forma criativa, resgatando a naturalidade e a essência da vida.

Atingir a idade madura significa o início de uma nova etapa da vida, que se bem preparada e estimulada pode ser promissora em termos de realizações de projetos, planos e sonhos que foram adiados e que se o idoso considerar o seu potencial de experiência e sabedoria acumuladas terá grandes benefícios.

Velhice está deixando de ser sinônimo de doença e há uma tendência mundial de mudar o nome Terceira Idade para "Idade do Poder" e a idéia é a valorização deste período da vida. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, "o importante é não apenas acrescentar anos à vida, mas sim, acrescentar vida aos anos".

Lembremos que..."Cervantes contava 68 anos quando terminou o Dom Quixote. As melhores composições de Bach aconteceram quando ele já tinha uma idade avançada. Beethoven superou a si mesmo em seus últimos quartetos. Rembrandt passava dos 60 anos quando pintou seus quadros mais famosos,Galileu, aos 72 anos mostrou ao mundo sua obra definitiva, Sigmund Freud, considerado o pai da Psicanálise, escreveu e fez descobertas, até bem pouco tempo antes de sua morte, em 1939 aos 83 anos. A nossa compositora e escritora Chiquinha Gonzaga que escreveu 77 partituras de peças teatrais e mais de 2000 composições em todos os gêneros, compôs a música da opereta Maria, de Viriato Corrêa, aos 80 anos de idade. Rui Barbosa aos 72 anos escreveu a sua famosa "Oração aos Moços", que é uma de suas grandes peças.

Segundo Felipe González "Un viejo que muere es una biblioteca que arde".

 

Bibliografia

1 – Abreu, Elvira. É a idade sim. E daí? Psicologia Atual. Ano I – Nº 9 – Grupo Editor Spagt.

2 - Alvarenga, M. Rogério, Envelhecimento Sob o Ponto de Vista Estético (www.vitamins.com.br/tema1/html)

3 - Bee, Helen. A criança em Desenvolvimento. São Paulo. Harper e Row do Brasil – 1977.

4 - Carvalho, Vládia. O que você vai ser quando envelhecer? Psicologia Atual – Ano VI – Nº 35. Grupo Editor Spagt, 1983.

5 – D. Azevedo, João Roberto – Ficar Jovem Leva Tempo....Um Guia para Viver Melhor – Editora Saraiva. (https://www.ficarjovemlevatempo.com.br/)

6 – D. Azevedo, João Roberto – Privilégio de ser Idoso (jroberto@dialdata.com.br)

6 – Jeammet,P. Manual de Psicologia Médica – Livraria Editora Masson, 1989.

7 – Poletti, Eurique J. – Envelhecimento

8 – Trinidad, M. Hoyl - Envelhecimento Biológico - Capítulo II. Processo de Envejecimiento: sus implicancias biológicas y sociales – Manual de Geriatria

9 – Viguera, Virgínia – Es Útil Aprender a Envejecer? – La Educación para el envejecimiento – Clase 3 -Curso Virtual.

10 - Virginia, Viguera - Los Fantasmas del Envejecer –La Educación para el Envejecimiento- Clase 8 - Curso Virtual

11–Virginia ,Viguera – Prejuicios, Mitos e Ideas Erróneas Acerca del Envejecimiento y La Vejez – Temas de Psicojerontologia – Tema 1

12-Stair,Nadine -Instantes – Poesia (www.secret.com.br/jpoesia/autoria.html#instantes)

Dados Pessoais:

  • Aluna: Luzia Travassos Duarte - Idade: 51 anos
  • Profissão: Psicóloga Clínica, Professora de Nível Superior – Curso de Medicina da Ufpb
  • Campus II. Paraíba -Brasil.

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